CRNICA. Henrique Chaves, 1893

Henrique Chaves

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.

Publicado originalmente em O lbum, Rio de Janeiro, 20/05/1893.

Henrique Chaves  um desmentido a duas velhas
  supersties. Nasceu em dia 13 e sexta-feira. No podia nascer pior, e,
  entretanto,  um dos homens felizes deste mundo. Em vez de ruins fadas, em
  volta do bero, cantando-lhe o coro melanclico dos caiporas, desceram anjos do
  cu, que lhe anunciaram muitas coisas futuras. Para os que nunca viram Lisboa,
  e tm pena, como o poeta, Henrique Chaves  ainda um venturoso: nasceu
  nela. Enfim, conta apenas quarenta e quatro anos, feitos em janeiro ltimo.

Um dia, tinha apenas vinte anos, transportou-se de Lisboa
  ao Rio de Janeiro. Para explicar esta viagem,  preciso remontar ao primeiro
  consulado de Csar. Este grande homem, assumindo aquela magistratura, teve
  idia de fazer publicar os trabalhos do senado romano. No era ainda a
  taquigrafia; mas, com boa vontade, boa e muita, podemos achar ali o grmen
  deste invento moderno. A taquigrafia trouxe Henrique Chaves ao Rio de Janeiro.
  Foi essa arte mgica de pr no papel, integralmente, as idias e as falas de um
  orador, que o fez atravessar o oceano, pelos anos de 1869.

Refiro-me  taquigrafia poltica. Ela o ps em contato com
  os nossos parlamentares dos ltimos vinte anos. H de haver na vida do
  taqugrafo parlamentar uma boa parte anedtica, que merecer s por si a pena
  de umas memrias. As emendas, bastam as emendas dos discursos, as posturas
  novas, o trabalho do toucador, as trunfas desfeitas e refeitas, com os grampos
  de erudio, ou os cabelos apenas alisados, basta s isso para caracterizar o
  modo de cada orador, e dar-nos perfis interessantes. Um velho taqugrafo
  contou-me, quase com lgrimas, um caso muito particular. Passou-se h trinta
  anos. Um senador, orador medocre, fizera um discurso mais que medocre, trinta
  dias antes de acabar a sesso. Recebeu as notas taquigrficas no dia imediato,
  e s as restituiu trs meses depois da sesso acabada. O discurso vinha todo
  por letra dele, e no havia uma s palavra das proferidas; era outro e pior.
  Ajuntai a esta parte anedtica aquela outra de psicologia que deve ser a
  principal, com uma estatstica das palavras, um estudo dos oradores cansativos,
  apesar de pausados, ou por isso mesmo, e dos que no cansam, posto que velozes.

Mas uma coisa  o ganha-po, outra  a vocao. Henrique
  Chaves trazia nas veias o sangue do jornalismo. Tem a facilidade, a
  naturalidade, o gosto e o tato precisos a este ofcio to rduo e to
  duro.  Pega de um assunto, o primeiro  mo, o preciso, o do dia, e compe
  o artigo com aquela presteza e lucidez que a folha diria exige, e com a nota
  prpria da ocasio. No lhe peam longos perodos de exposio, nem dedues
  complicadas. Cai logo in medias res, como a regra clssica dos poemas.
  As primeiras palavras parecem continuar uma conversao. O leitor acaba supondo
  ter feito um monlogo.

No esqueamos que o seu temperamento  o da prpria folha
  em que escreve, a Gazeta de Notcias, que trouxe ao jornalismo desta
  cidade outra nota e diversa feio. Vinte anos antes de encetar a carreira, no
  sei se o faria, -- ao menos, com igual amor. A imprensa de h trinta anos no
  tinha este movimento vertiginoso. A notcia era como a rima de Boileau, une
    esclave et ne doit qu'obir. Teve o seu Treze de Maio, e passou da posio
  subalterna  sala de recepo.

Os quarenta e quatro anos de Henrique Chaves podem subir a
  sessenta e seis; nunca passaro dos vinte e dois. No falo por causa de
  iluses; ningum lhas pea, que  o mesmo que pedir um santo ao diabo. Uma das
  feies do seu esprito  a incredulidade a respeito de um sem-nmero de coisas
  que se impem pela aparncia. Outra feio  a alegria; ele ri bem e
  largo, comunicativamente. A conversao  viva,  lpida. Considerai que ele 
  o avesso do medalho. Considerai tambm que  difcil saber aturar uma narrao
  enfadonha com mais fina arte. No se impacienta, no suspira, puxa o bigode; o
  narrador cuida que  um sinal de ateno, e ele pensa em outra coisa.
