Crtica, Revelaes, de A. E. Zaluar, 1863

Revelaes. Poesias de
A. E. Zaluar, Garnier editor, 1863.

Texto-Fonte:

Crtica
Literria de
Machado de Assis,

Rio de
Janeiro: W. M. Jackson, 1938.

Publicado
originalmente no Dirio do Rio de Janeiro, maro de 1863.

Dois motivos me levam a falar do livro do Sr. A. E.
Zaluar; o primeiro,  o prprio merecimento dele, a confirmao que essas novas
pginas trazem ao talento do poeta; o segundo,  ser o autor das Revelaes
um dos que conservam mais viva a f potica e acreditam realmente na poderosa
influncia das musas.

Parece,  primeira vista, coisa impossvel um poeta
que condene a sua prpria misso, no acreditando nos efeitos dela; mas, se se
perscrutar cuidadosamente, ver-se- que este fenmeno , no s possvel, como
at no raro.

O tom sinceramente elegaco da poesia de alguns dos
mestres contemporneos deu em resultado uma longa enfiada desses filhos das
musas, alis, talentosos, em cuja lira a desconfiana e o abatimento tomam o
lugar da f e da aspirao.

Longe a idia de condenar os que, aps longa e
dolorosa provao, sem negarem a grandeza de sua misso moral, soluam por
momentos desconsolados e desesperanados. Desses sabe-se que a cada gota de
sangue que lhes tinge os lbios corresponde um rompimento de fibras interiores;
mas entre esses sofrimentos, muitas vezes no conhecidos de todos, e o
continuado lama sabactani dos pretendidos infelizes, h uma distncia
que a credulidade dos homens no deve preencher.

No se contesta s almas poticas certa
sensibilidade fora do comum e mais exposta por isso ao choque das paixes
humanas e das contrariedades da vida; mas no se estenda essa faculdade at  sensiblerie,
nem se confunda a dor espontnea com o sofrimento calculado. A nossa lngua tem
exatamente dois termos para exprimir e definir essas duas classes de poetas;
uns sero a sensibilidade, outros a suscetibilidade.

Destes ltimos no  o autor das Revelaes,
o que no tempo presente  um verdadeiro mrito e um dos primeiros a serem
apontados na conta da anlise.

Anlise escapa-me aqui, sem indicar de minha parte
intuito determinado de examinar detida e profundamente a obra do Sr. Zaluar. Em
matria de crtica o poeta e o leitor tm direito a exigir do escritor mais
valiosos documentos que os meus; esta confisso, que eu sempre tenho o cuidado
de repetir, deve relevar-me dos erros que cometer e dispensar-me de um longo
exame.  como um companheiro da mesma oficina que eu leio os versos do poeta, e
indico as minhas impresses. Nada mais.

O primeiro volume com que o Sr. Zaluar se estreou
na poesia intitulava-se Dores e Flores; foi justamente apreciado como um
primeiro ensaio; mas desde ento a crtica reconheceu no poeta um legtimo
talento e o admitiu entre as esperanas que comeavam a florir nesse tempo.

As torturas de Bossuet para descrever o sonho da
herona servem-me de aviso nesta conjuntura, mas tiram-me uma das mais
apropriadas figuras, com que eu poderia definir o resultado mau e o resultado
bom dessas esperanas nascentes.

Direi em prosa simples que o autor das Dores e
Flores foi das esperanas que vingaram, e pode atravessar os anos dando
provas do seu talento sempre desenvolvido.

O que  pena (e  essa a principal censura a fazer
s Revelaes)  que durante o longo perodo que separa os dois livros o
poeta no acompanhasse o desenvolvimento do seu estro com maior cpia de
produes, e que no fim de to longa espera o novo livro no traga com que
fartar largamente tantos desejos. Mas, sendo assim, o que resta aos
apreciadores do talento do poeta  buscar no insuficiente do livro as sensaes
a que ele os acostumou.

Para ser franco cumpre declarar que h reservas a
fazer, e tanto mais notveis, quanto se destacam sensivelmente no fundo irrepreensvel
do livro. Mais de uma vez o poeta, porque escrevesse em horas de cansao ou
fastio, sai com a sua musa das regies etreas para vir jogar terra a terra com
a frieza das palavras; esses abatimentos, que, por um singular acaso, na
diviso do livro acham-se exatamente em ordem a indicar as alternativas dos
vos da sua musa, servem,  certo, para pr mais em relevo as suas belezas
incontestveis e as elevaes peridicas do seu estro.

Pondo de parte esses fragmentos menos cuidados,
detenho-me no que me parece traduzir o poeta. A, reconhecem-se as suas
qualidades, sente-se a sua poesia melodiosa, simples, terna; a sua expresso
conceituosa e apropriada; a abundncia contida do seu estro. Sempre que o poeta
d passagem s comoes de momento, a sua poesia traz o verdadeiro e primitivo
sabor, como na Casinha de sap e outras.

A parte destinada  famlia e ao lar, que  por
onde comea o livro, traz fragmentos de poesia melanclica, mas no dessa
melancolia que anula toda a ao do poeta e faz ver na hora presente o comeo
de continuadas catstrofes.  esse um assunto eterno de poesia; a recordao da
vida de criana, na intimidade do lar paterno, onde as mgoas e os dissabores,
como os raios, no chegam at s plantas rasteiras, no passando dos carvalhos;
essa recordao na vida do homem feito  sempre causa de lgrimas involuntrias
e silenciosas; as do poeta so assim, e to medrosas de aparecer, que essa
parte do livro  a menos farta.

Efmeras
 o ttulo da segunda parte do livro. A reuniu o poeta as poesias de assunto
diverso, as que traduzem afetos e observaes, os episdios ntimos e rpidos
da vida.

Arrufos
 uma das poesias mais notveis dessa parte;  inspirada visivelmente da musa
fcil de Garret, mas com tal felicidade, que o leitor, lembrando-se do grande
mestre, nem por isso deixa de lhe achar um especial perfume.

No acompanharei as outras efmeras de merecimento,
como sejam A Confisso, Perdo, etc. O livro contm mais duas
partes; uma, onde se acham algumas boas tradues do autor, e versos que lhe
so dedicados por poetas amigos; outra que toma por ttulo Harpa Brasileira,
onde esto as poesias A casinha de sap, O ouro, O Filho das
florestas, A flor do mato, os Rios, etc.

Da Casinha de sap j disse que  uma das
melhores do livro; acrescentarei que ela basta para indicar a existncia do
fogo sagrado no esprito do poeta; a melancolia do lugar  traduzida em versos
que deslizam suave, espontnea e naturalmente, e a descrio no pode ser mais
verdadeira.

Para apreciao detida do leitor, dou aqui algumas
dessas estrofes:

No cimo de um morro agreste,

Por entre uns bosques sombrios,

Onde conduz uma senda

De emaranhados desvios,

Uma casinha se v

Toda feita de sap!

Suave estncia! Parece,

Circundada de verdura,

Como um templo recatado

No seio da espessura;

Naqueles ermos to ss

No chega do mundo a voz!

Apenas uma torrente,

Que brota l dos rochedos,

Murmura galgando as penhas,

Suspira entre os arvoredos!

Tem ali a natureza

A primitiva beleza!

L distante... inda se escuta

Ao longe o bramir do mar!

Ouvem-se as vagas frementes

Nos alcantis rebentar!

Aquele eterno lamento

Chora nas asas do vento!

Mas na casinha, abrigada

Pelos ramos das mangueiras,

Protegida pelas sombras,

Dos leques das bananeiras,

Aquele triste clamor

 como um gnio de amor!

Eu e Jlia nos perdemos

Na senda, uma vez, do monte;

Ao sol-posto  cor de lrio

Era a barra do horizonte

Toda a terra se cobria

D'um vu de melancolia!

O meu brao segurava

O seu corpo j pendido

s emoes, ao cansao,

Como que desfalecido.

Seus olhos com que doura

Se banhavam de ternura!

Paramos no tosco ang'lo

Da montanha verdejante.

Era deserto. No tinha

A ningum por habitante!

S no lar abandonadas

Algumas pedras tisnadas!

.........................................

.........................................

A Flor do mato, o Ouro, o Filho das Selvas so tambm, como esta, de
mrito superior.

No prefcio do livro, o sr. Zaluar d a poesia Os
Rios como o elo entre os seus volumes publicados e outro cuja publicao
anuncia. A pretende ele entrar na contemplao sria da natureza e do
infinito. Tendo atingido a completa virilidade do seu talento, o autor das Revelaes
compreende, e compreende bem, que  hora de sair inteiramente do ciclo das
impresses individuais. J, como ele mesmo observa, algumas das poesias deste
livro fazem pressentir essa tendncia.

Direi que j era tempo, e, sem a menor inteno de
fazer um cumprimento ao poeta, acrescento que a poesia ganhar com os seus
prometidos tentames.

E se fosse dado a qualquer indicar caminho s
tendncias do poeta e modificar-lhe as intenes, eu diria que, no s a essa
contemplao do infinito e da natureza, mas tambm  descoberta e consolao das
dores da humanidade devia dirigir-se a sua musa.

Ela tem bastante comoo, nas palavras, para
consolar as misrias da vida e embalsamar as feridas do corao.

Em resumo, o livro do sr. Zaluar , como disse ao
princpio, uma confirmao de que no precisava o seu talento. A poetas como o
autor das Revelaes, no h mister de exortaes e conselhos; ele sabe
que a condio do talento  trabalhar e utilizar as suas foras. O tempo para
os dons do esprito  um meio de desenvolvimento; a inspirao que se aplica,
cresce e se fortalece, em vez de diminuir e esgotar-se. As Revelaes
so uma prova disto.  principalmente a respeito da poesia que tem aplicao o
dito de Bufon:  A velhice  um preconceito.
