Conto, Antes a Rocha Tarpia, 1887

Antes a rocha Tarpia

Texto Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis, Vol. III

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em Almanaque da Gazeta de Notcias, 1887.

Como  que me achei ali em cima?
Era um pedao de telhado, inclinado, velho, estreitinho, com cinco palmos de
muro por trs. No sei se fui ali buscar alguma coisa; parece que sim, mas
qualquer que ela fosse, tinha cado ou voado, j no estava comigo. Eu  que
fiquei ali no alto, sozinho, sem nenhum meio de voltar abaixo.

Comeara a entender que era
pesadelo. J l vo alguns anos. A rua ou estrada em que se achava aquela
construo era deserta. Eu, do alto, olhava para todos os lados sem descobrir
sombra de homem. Nada que me salvasse; pau nem corda. Ia aflito de um para
outro lado, vagaroso, cauteloso, porque as telhas eram antigas, e tambm porque
o menor descuido far-me-ia escorregar e ir ao cho. Continuava a olhar ao
longe, a ver se aparecia um salvador; olhava tambm para baixo, mas a idia de
dar um pulo era impossvel; a altura era grande, a morte certa.

De repente, sem saber de onde
tinham vindo, vi em baixo algumas pessoas, em pequeno nmero, andando, umas da
direita, outras da esquerda. Bradei de cima  que passava mais perto:

  senhor! acuda-me!

Mas o sujeito no ouviu nada, e
foi andando. Bradei a outro e outro; todos iam passando sem ouvir a minha voz.
Eu, parado, cosido ao muro, gritava mais alto, como um trovo. O temor ia crescendo,
a vertigem comeava; e eu gritava que me acudissem, que me salvassem a vida,
pela escada, corda, um pau, pedia um lenol, ao menos, que me apanhasse na
queda. Tudo era vo. Das pessoas que passavam s restavam trs, depois duas,
depois uma. Bradei a essa ltima com todas as foras que me restavam:

 Acuda! acuda!

Era um rapaz, vestido de novo, que
ia andando e mirando as botas e as calas. No me ouviu, continuou a andar, e
desapareceu.

Ficando s, nem por isso cessei de
gritar. No via ningum, mas via o perigo. A aflio era j insuportvel, o
terror chegara ao paroxismo... Olhava para baixo, olhava para longe, bradava
que me acudissem, e tinha a cabea tonta e os cabelos em p... No sei se cheguei a cair; de repente, achei-me na cama acordado.

Respirei  larga, com o sentimento
da pessoa que sai de um pesadelo. Mas aqui deu-se um fenmeno particular; livre
de perigo, entrei a sabore-lo. Em verdade, tivera alguns minutos ou segundos
de sensaes extraordinrias; vivi de puro terror, vertigem e desespero, entre
a vida e a morte, como uma peteca entre as mos destes dois mistrios. A
certeza, porm, de que tinha sido sonho dava agora outro aspecto ao perigo, e
trazia  alma o desejo vago de achar-me nele outra vez. Que tinha, se era
sonho?

Ia assim pensando, com os olhos
fechados, meio adormecido; no esquecera as circunstncias do pesadelo, e a
certeza de que no chegaria a cair acendeu de todo o desejo de achar-me outra
vez no alto do muro, desamparado e aterrado. Ento apertei muito os olhos para
no despertar de todo, e para que a imaginao no tivesse tempo de passar a
outra ordem de vises.

Dormi logo. Os sonhos vieram
vindo, aos pedaos, aqui uma voz, ali um perfil, grupos de gente, de casas, um
morro, gs, sol, trinta mil coisas confusas, que se cosiam e descosiam. De
repente vi um telhado, lembrei-me do outro, e como dormira com a esperana de
reatar o pesadelo, tive uma sensao misturada de gosto e pavor. Era o telhado
de uma casa; a casa tinha uma janela;  janela estava um homem; este homem
cumprimentou-me risonho, abriu a porta, fez-me entrar, fechou a porta outra vez
e meteu a chave no bolso.

 Que  isto? perguntei-lhe.

  para que nos no incomodem,
acudiu ele risonho.

Contou-me depois que trazia um
livro entre mos, tinha uma demanda e era candidato a um lugar de deputado:
trs matrias infinitas. Falou-me do livro, trezentas pginas, com citaes,
notas, apndices; referiu-me a doutrina, o mtodo, o estilo, leu-me trs
captulos. Gabei-os, leu-me mais quatro. Depois, enrolando o manuscrito,
disse-me que previa as crticas e objees; declarou quais eram e refutou-as
uma por uma.

Eu, sentado, afiava o ouvido, a
ver se aparecia algum; pedia a Deus um salteador ou a justia, que arrombasse
a porta. Ele, se falou em justia, foi para contar-me a demanda, que era uma
ladroeira do adversrio, mas havia de venc-lo a todo custo. No me ocultou
nada; ouvi o motivo, e todos os trmites da causa, com anedotas pelo meio, uma
do escrivo que estava vendido ao adversrio, outra de um procurador, as
conversaes com os juzes, trs acrdos e os respectivos fundamentos.  fora
de pleitear, o homem conhecia muito texto, decretos, leis, ordenaes, citava
os livros e os pargrafos, salpicava tudo de perdigotos latinos. s vezes,
falava andando, para descrever o terreno,  era uma questo de terras,  aqui o
rio, descendo por ali, pegando com o outro mais abaixo; deste lado as terras de
Fulano, daquele as de Sicrano... Uma ladroeira clara; que me parecia?

 Que sim.

Enxugou a testa, e passou 
candidatura. Era legtima; no negava que pudesse haver outras aceitveis; mas
a dele era a mais legtima. Tinha servios ao partido, no era a qualquer
coisa, no vinha pedir esmola de votos. E contava os servios prestados em
vinte anos de lutas eleitorais, luta de imprensa, apoio aos amigos, obedincia
aos chefes. E isso no se premiava? Devia ceder o seu lugar a filhos? Leu a
circular, tinha trs pginas apenas; com os comentrios verbais, sete. E era a
um homem destes que queriam deter o passo? Podiam intrig-lo; ele sabia que o
estavam intrigando, choviam cartas annimas... Que chovessem! Podiam vasculhar
no passado dele, no achariam nada, nada mais que uma vida pura, e, modstia 
parte, um modelo de excelentes qualidades. Comeou pobre, muito pobre; se tinha
alguma coisa era graas ao trabalho e  economia,  as duas alavancas do
progresso.

Uma s dessas velhas alavancas que
ali estivesse bastava para deitar a porta abaixo; mas nem uma nem outra, era s
ele, que prosseguia, dizendo-me tudo o que era, o que no era, o que seria, e o
que teria sido e o que viria a ser,  um Hrcules, que limparia a estrebaria de
Augias,  um varo forte, que no pedia mais que tempo e justia. Fizessem-lhe
justia, dando-lhe votos, e ele se incumbiria do resto. E o resto foi ainda
muito mais do que pensei... Eu, abatido, olhava para a porta, e a porta calada,
impenetrvel, no me dava a menor esperana. Lasciati ogni speranza...

No, c est mais que a esperana;
a realidade deu outra vez comigo acordado, na cama. Era ainda noite alta; mas
nem por isso tentei, como da primeira vez, conciliar o sono. Fui ler para no
dormir. Por qu? Um homem, um livro, uma demanda, uma candidatura, por que 
que temi reav-los, se ia antes, de cara alegre, meter-me outra vez no telhado
em que...?

Leitor, a razo  simples. Cuido
que h na vida em perigo um sabor particular e atrativo; mas na pacincia em
perigo no h nada. A gente recorda-se de um abismo com prazer; no se pode
recordar de um maante sem pavor. Antes a rocha Tarpia que um autor de m
nota.
