Conto, A Viva Sobral, 1884

A Viva Sobral

Texto-fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis,
vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, de 15/4/1884 a 15/5/1884.

CAPTULO PRIMEIRO

 ... Mas ests com pressa?

 Alguma.

 Em todo caso, no vais salvar o
pai da forca.

 Pode ser.

 Explica-te.

 Explico-me.

 Mas explica-te refrescando a
goela. Queres um sorvete? V, dois sorvetes. Traga dois sorvetes...
Refresquemo-nos, que realmente o calor est insuportvel. Estiveste em
Petrpolis.

 No.

 Nem eu.

 Estive no Pati do Alferes,
imagina por qu?

 No posso.

 Vou...

 Acaba.

 Vou casar.

Cesrio deixou cair o queixo de
assombro, enquanto o Brando saboreava, olhando para ele, o gosto de ter dado
uma novidade grossa. Vieram os sorvetes, sem que o primeiro sasse da posio
em que a notcia o deixou; era evidente que no lhe dava crdito.

 Casar? repetiu ele afinal, e o
Brando respondeu-lhe com a cabea que sim, que ia casar. No, no, 
impossvel.

Estou que o leitor no sente a
mesma incredulidade, desde que considera que o casamento  a tela da vida, e
que toda a gente casa, assim como toda a gente morre. Se alguma coisa o enche
de assombro  o assombro de Cesrio. Tratemos de explic-lo em cinco ou seis
linhas.

Viviam juntos esses dois rapazes
desde os onze anos, e mais intimamente desde os dezesseis. Contavam agora vinte
e oito. Um era empregado no comrcio, outro da alfndega. Tinham uma parte da
vida comum, e comuns os sentimentos. Assim  que ambos faziam do casamento a
mais deplorvel idia, com ostentao, com excesso, e para afirm-lo, viviam
juntos a mesma vida solta. No s entre eles deixara de haver segredo, mas at
comeava a ser impossvel que o houvesse, desde que ambos davam os mesmos
passos, de um modo unssono. Comea a entender-se o espanto do Cesrio.

 D-me a tua palavra que no
ests brincando?

 Conforme.

 Ah!

 Quando eu digo que vou casar,
no quero dizer que tenho a dama pedida; quero dizer que o namoro est a
caminho, e que desta vez  srio. Resta adivinhar quem .

 No sei.

 E foste tu mesmo que me levaste
l.

 Eu?

  a Sobral.

 A viva?

 Sim, a Candinha.

 Mas...?

Brando contou tudo ao amigo.
Cerca de algumas semanas antes, Cesrio levara-o  casa de um amigo do patro,
um Viegas, comerciante tambm, para jogar o voltarete; e ali acharam, pouco
antes chegada do Norte, uma recente viva, D. Candinha Sobral. A viva era
bonita, afvel, dispondo de uns olhos que os dois concordaram em achar
singulares. Os olhos, porm, eram o menos. O mais era a reputao de mau gnio
que esta moa trazia. Disseram que ela matara o marido com desgostos,
caprichos, exigncias; que era um esprito absoluto, absorvente, capaz de
deitar fogo aos quatro cantos de um imprio para aquecer uma xcara de ch. E,
como sempre acontece, ambos acharam que, a despeito das maneiras, lia-se-lhe
isso mesmo no rosto; Cesrio no gostara de um certo jeito da boca, e o Brando
notara-lhe nas narinas o indcio da teima e da perversidade. Duas semanas
depois tornaram a encontrar-se os trs, conversaram, e a opinio radicou-se.
Eles chegaram mesmo  familiaridade da expresso:  m rs, alma de poucos
amigos, etc.

Agora entende-se, creio eu, o
espanto do amigo Cesrio, no menos que o prazer do Brando em dar-lhe a
notcia. Entende-se, portanto, que s comeassem a tomar os sorvetes para no
v-los derretidos, sem nenhum deles saber o que estava fazendo.

 Juro que h quinze dias no era
capaz de cuidar nisto, continuava o Brando; mas os dois ltimos encontros,
principalmente o de segunda-feira... No te digo nada... Creio que acabo
casando.

 Ah! crs!

  um modo de falar,  certo que
acabo.

Cesrio acabou o sorvete, engoliu
um clice de cognac, e fitou o amigo, que raspava o copo, amorosamente.
Depois fez um cigarro, acendeu-o, puxou duas ou trs fumaas, e disse ao
Brando que ainda esperava v-lo recuar; em todo caso, aconselhava-lhe que no
publicasse desde j o plano; esperasse algum tempo. Talvez viesse a recuar...

 No, interrompeu Brando com
energia.

 Como, no?

 No recuo.

Cesrio levantou os ombros.

 Achas que fao mal? pergunta o
outro.

 Acho.

 Por qu?

 No me perguntes por qu.

 Ao contrrio, pergunto e
insisto. Opes-te por causa de ser casamento.

 Em primeiro lugar.

Brando sorriu.

 E por causa da noiva, concluiu
ele. J esperava por isso; ests ento com a opinio que ambos demos logo que
ela chegou da provncia? Enganas-te. Tambm eu estava; mas mudei...

 E depois, continuou Cesrio,
falo por um pouco de egosmo; vou perder-te...

 No.

 Sim e sim. Ora tu!... Mas como
foi isso?

Brando contou os pormenores do
negcio; exps minuciosamente todos os seus sentimentos. No a pedira ainda,
nem havia tempo para tanto; a prpria resoluo no estava formulada. Mas tinha
por certo o casamento. Naturalmente, louvou as qualidades da namorada, sem
convencer ao amigo, que, alis, entendeu no insistir na opinio e guard-la
consigo.

 So simpatias, dizia ele.

Saram depois de longo tempo de
conversao, e separaram-se na esquina. Cesrio mal podia crer que o mesmo
homem, que antipatizara com a viva e dissera dela tantas coisas e to
grotescas, quinze dias depois estivesse apaixonado ao ponto de casar. Puro
mistrio! E resolvia o caso na cabea, e no achava explicao, no se tratando
de um crianola, nem de uma descomunal beleza. Tudo por querer achar,  fora,
uma explicao; se no a procurasse, dava com ela, que era justamente nenhuma,
coisa nenhuma.

CAPTULO II

Emendemos o Brando. Contou ele
que os dois ltimos encontros com a viva, aqui na corte,  que lhe deram a
sensao do amor; mas a verdade pura  que a sensao s o tomou inteiramente
no Pati do Alferes, de onde ele acaba de chegar. Antes disso, podia ficar um
pouco lisonjeado das maneiras dela, e ter mesmo alguns pensamentos; mas o que
se chama sensao amorosa no a teve antes. Foi ali que ele mudou de opinio a
respeito dela, e se deixou cair nas graas de uma dama, que diziam ter matado o
marido com desgostos.

A viva Sobral no tinha menos de
vinte e sete anos nem mais de trinta; ponhamos vinte e oito. J vimos o que
eram os olhos;  podiam ser singulares, como eles diziam, mas eram tambm
bonitos. Vimos ainda um certo jeito da boca, mal aceito ao Cesrio, enquanto as
narinas o eram ao Brando, que achou nelas o indcio da teima e da
perversidade. Resta mostrar a estatura, que era muito elegante, e as mos, que
nunca estavam paradas. No baile no lhe notou o Brando esta ltima
circunstncia; mas no Pati do Alferes, na casa da prima, familiarmente e a
gosto, achou que ela movia as mos sempre, sempre, sempre. S no atinou com a
causa, se era uma necessidade, um sestro, ou uma inteno de mostr-las, por
serem lindas.

No, pensou ele no segundo dia,
no  para mostr-las; essa preocupao no se compadece com a maldade do
gnio...

No terceiro dia, comeou o Brando
a perguntar onde estava a maldade do gnio de D. Candinha. No achava nada que
pudesse dar indcio dela; via-a alegre, dada, conversada, ouvindo as coisas com
muita pacincia, e contando anedotas do Norte com muita graa. No quarto dia,
os olhos de ambos andaram juntos, no se sabendo unicamente se foram os dele
que procuraram os dela, ou vice-versa; mas andaram juntos. De noite, na cama, o
Brando jurava a si mesmo que era tudo calnia, e que a viva tinha mais de
anjo que de diabo. Dormiu tarde e mal. Sonhou que um anjo vinha ter com ele e
lhe pedia para trepar ao cu; trazia a cara da viva. Ele aceitou o convite; a
meio caminho, o anjo pegou das asas e cravou-as na cabea,  laia de pontas, e
carregou-o para o inferno. Brando acordou transpirando muito. De manh,
perguntou a si mesmo:

 Ser um aviso?

Evitou os olhos dela, durante as
primeiras horas do dia; ela, que o percebeu, recolheu-se ao quarto e no apareceu
antes do jantar. Brando estava desesperado, e deu todos os sinais que podiam
exprimir o arrependimento e a splica do perdo. D. Candinha, que era uma
perfeio, no fez caso dele at  sobremesa;  sobremesa comeou a mostrar que
podia perdoar, mas ainda assim o resto do dia no foi como o anterior. Brando
deu-se a todos os diabos. Chamou-se ridculo. Um sonho? Quem diabo acredita em
sonhos?

No dia seguinte tratou de
recuperar o perdido, que no era muito, como vimos, to-somente alguns olhares;
alcanou-o para a noite. No outro estavam as coisas restabelecidas. Ele
lembrou-se ento que, durante as horas de frieza, notara nela o mau jeito da
boca, o tal, o que lhe dava indcio da perversidade da viva; mas to depressa
o lembrou, como rejeitou a observao. Antes era um aviso, passara a ser uma
oportunidade.

Em suma, voltou no princpio da
seguinte semana, inteiramente namorado, posto sem nenhuma declarao de parte a
parte. Ela pareceu-lhe ficar saudosa. Brando chegou a lembrar-se que a mo dela,
 despedida, estava um pouco trmula; mas, como a dele tambm tremia, no se
pode afirmar nada.

S isto. No havia mais do que
isto, no dia em que ele referiu ao Cesrio que ia casar. Que no pensava seno
no casamento, era verdade. D. Candinha voltou para a corte da a duas semanas,
e ele estava ansioso por v-la, para lhe dizer tudo, tudo, e pedi-la, e lev-la
 igreja. Chegou a pensar no padrinho: seria o inspetor da alfndega.

Na alfndega, notaram-lhe os
companheiros um certo ar distrado, e s vezes, superior; mas ele no disse
nada a ningum. Cesrio era o confidente nico, e antes no fosse nico; ele
procurava-o todos os dias para lhe falar da mesma coisa, com as mesmas
palavras, e inflexes. Um dia, dois dias, trs dias, v; mas sete, mas quinze,
mas todos! Cesrio confessava-lhe, rindo, que era demais.

 Realmente, Brando, tu ests que
pareces um namorado de vinte anos...

 O amor nunca  mais velho,
redargiu o outro; e, depois de fazer um cigarro, puxar duas fumaas, e
deix-lo apagar, continuava a repetio das mesmas coisas e palavras, com as
mesmssimas inflexes.

CAPTULO III

Vamos e venhamos: a viva gostava
um pouco do Brando; no digo muito, digo um pouco, e talvez muito pouco. No
lhe parecia grande coisa, mas sempre era mais que nada. Ele fazia-lhe amiudadas
visitas e olhava muito para ela; mas, como era tmido, no lhe dizia nada, no
chegava a planear uma linha.

 Em que ponto vamos, em suma?
Perguntava-lhe o Cesrio um dia, fatigado de s ouvir entusiasmos.

 Vamos devagar.

 Devagar?

 Mas com segurana.

Um dia recebeu Cesrio um convite
da viva para l ir a uma reunio familiar: era lembrana do Brando, que foi
ter com ele e pediu-lhe instantemente que no faltasse. Cesrio sacrificou o teatro
nessa noite, e foi. A reunio esteve melhor do que ele esperava; divertiu-se
muito. Na rua disse ele ao amigo:

 Agora, se me permites franqueza,
vou chamar-te um nome feio.

 Chama.

 Tu s um palerma.

 Viste como ela olhava para mim?

 Vi, sim, e por isso mesmo  que
acho que ests botando dinheiro  rua. Pois uma pessoa assim disposta...
Realmente s um bobo.

Brando tirou o chapu e coou a
cabea.

 Para falar a verdade, eu mesmo
j tenho dito essas coisas, mas no sei que acho em mim, acanho-me, no me
atrevo...

 Justamente; um palerma.

Andaram ainda alguns minutos
calados.

 E no te parece esplndida?
perguntou o Brando.

 No, isso no; mais bonita do
que a princpio,  verdade; fez-me melhor impresso; esplndida  demais.

Quinze dias depois, viu-a o
Cesrio em casa de terceiro, e pareceu-lhe que ainda era melhor. Da comeou a
freqentar a casa, a pretexto de acompanhar o outro, e ajud-lo, mas realmente
porque comeava a olh-la com olhos menos desinteressados. J aturava com
pacincia as longas confisses do amigo; chegava mesmo a procur-las.

D. Candinha percebeu, em pouco
tempo, que em vez de um, tinha dois adoradores. No era motivo de pr luto ou deitar
fogo  casa; parece mesmo que era caso de vestir galas; e a rigor, se alguma
falha havia, era que eles fossem dois, e no trs ou quatro. Para conservar os
dois, D. Candinha usou de um velho processo: dividindo com o segundo as
esperanas do primeiro, e ambos ficavam entusiasmados. Verdade  que o Cesrio,
posto no fosse to valente, como dizia, era muito mais que o Brando. De
maneira que, ao cabo de algumas dzias de olhares, apertou-lhe a mo com muito
calor. Ela no a apertou de igual modo, mas tambm no se deu por zangada, nem
por achada. Continuou a olhar para ele. Mentalmente, comparava-os:

O Cesrio sempre  outra coisa;
mas tambm no h de ser to fcil de guiar. Se o Brando no fosse to comum!
 ainda mais comum que o outro.

Um dia o Brando descobriu um
olhar trocado entre o amigo e a viva. Naturalmente ficou desconsolado, mas no
disse nada; esperou. Da a dias notou mais dois olhares, e passou mal a noite,
dormiu tarde e mal; sonhou que matara ao amigo. Teve a ingenuidade de cont-lo
a este, que riu muito, e disse-lhe que fosse tomar juzo.

 Voc tem coisas! Pois bem; somos
concordes nisto:  deixo de voltar  casa dela...

 Isso nunca!

 Ento que queres?

 Quero que me digas, francamente,
se gostas dela, e se vocs se namoram.

Cesrio declarou-lhe que era uma
simples fantasia dele, e continuou a namorar a viva, e o Brando tambm, e ela
aos dois, todos com a maior unanimidade.

Naturalmente as desconfianas
reviveram, e assim as explicaes, e comearam os azedumes e as brigas. Uma
noite, ceando os dois, de volta da casa dela, estiveram a ponto de brigar
formalmente. Mais tarde separaram-se por dias; mas como o Cesrio teve de ir a
Minas, o outro reconciliou-se com ele  volta, e dessa vez no instou para que
tornasse a freqentar a casa da viva. Esta  que lhe mandou convite para outra
reunio; e tal foi o princpio de novas contendas.

As aes de ambos continuavam no
mesmo p. A viva distribua as finezas com igualdade prodigiosa, e o Cesrio
comeava a achar que a complacncia para com o outro era longa demais.

Nisto apareceu no horizonte uma
pequenina mancha branca; era algum navio que se aproximava com as velas
abertas. Era navio e de alto bordo;  um vivo, mdico, ainda conservado, que
entrou a cortejar a viva. Chamava-se Joo Lopes. J ento o Cesrio tinha
arriscado uma carta, e mesmo duas, sem obter resposta. A viva foi passar
alguns dias fora, depois da segunda; quando voltou, recebeu terceira, em que o
Cesrio lhe dizia as coisas mais ternas e splices. Esta carta deu-lha em mo.

 Espero que me no conservar
mais tempo na incerteza em que vivo. Peo-lhe que releia as minhas cartas...

 No as li.

 Nenhuma?

 Quatro palavras da primeira
apenas. Imaginei o resto e imaginei a segunda.

Cesrio refletiu alguns instantes:
depois disse com muita discrio:

 Bem; no lhe pergunto os
motivos, porque sei que me ho de desenganar; mas eu no quero ser desenganado.
Peo-lhe uma s coisa.

 Pea.

 Peo-lhe que leia esta terceira
carta, disse ele, tirando a carta do bolso; aqui est tudo o que estava nas
outras.

 No... no...

 Perdo; pedi-lhe isto,  um
favor ltimo; juro que no tornarei mais.

D. Candinha continuou a recusar;
ele deixou a carta no dunkerque, cumprimentou-a e saiu. A viva no
desgostou de ver a obstinao do rapaz, teve curiosidade de ler o papel, e
achou que o podia fazer sem perigo. No transcrevo nada, por que eram as mesmas
coisas de todas as cartas de igual gnero. D. Candinha resolveu dar-lhe
resposta igual  das primeiras, que era nenhuma.

Cesrio teve o desengano verbal,
trs dias depois, e atribuiu-o ao Brando. Este aproveitou a circunstncia de
achar-se s para dar a batalha decisiva.  assim que ele chamava a todas as
escaramuas. Escreveu-lhe uma carta a que ela respondeu deste modo:

Devolvo o bilhete que me entregou
ontem, por engano, e desculpe se li as primeiras palavras; afiano-lhe que no
vi o resto.

O pobre-diabo quase teve uma
congesto. Meteu-se na cama trs dias, e levantou-se resolvido a voltar l; mas
a viva tornara a sair da cidade. Quatro meses depois casava ela com o mdico.
Quanto ao Brando e o Cesrio, que estavam j brigados, nunca mais se falaram;
criaram dio um ao outro, dio implacvel e mortal. O triste  que ambos
comearam por no gostar da mesma mulher, como o leitor sabe, se se lembra do
que leu.
