Conto, Quem No Quer Ser Lobo, 1872

Quem no quer ser lobo...

Texto Fonte:

Histrias Romnticas, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Edies W. M.
Jackson, 1938.

Texto Fonte:

Publicado originalmente em
Jornal das Famlias, abril de 1872.

NDICE

CAPTULO PRIMEIRO - A
CARTEIRA PERDIDA

CAPTULO II - Z. Y.

CAPTULO
III - L.

CAPTULO IV - NO JARDIM

CAPTULO V - O VULTO

CAPTULO VI - MISTRIO

CAPTULO VII - A SOMBRA DE
BANQUO

CAPTULO VIII - A INDENIZAO

CAPTULO IX - AH!

CAPTULO PRIMEIRO

A CARTEIRA PERDIDA

Na ltima noite de carnaval do ano
de 1863, houve em um dos hotis desta boa cidade do Rio de Janeiro uma lauta
ceia que durou at ao raiar do dia. Os convivas saram a pouco e pouco, e foram
uns a p, outros de carro, a caminho do respectivo domiclio.

O ltimo que saiu do hotel era um
rapaz magro, alto, franzino na aparncia, mas dotado de grande vigor de pulso,
como alguns durante a noite e o baile tiveram ocasio de experimentar. Saiu um
tanto trpego, j pelo cansao, j pelo vinho, e aos olhos no espantados das
quitandeiras que passavam para o mercado, dos varredores das ruas e dos
entregadores de jornais, foi tomando a direo da casa, que era no fim da Rua
da Ajuda.

Justamente no ponto em que se
cruzam as ruas da Ajuda, Ourives, S. Jos e Parto, o nosso tardio conviva deu
com o p num objeto; abaixou-se para ver o que era; era uma carteira. Olhou em
volta de si; as ruas estavam desertas; nas lojas abertas, ningum havia que o
pudesse ver. Meteu a carteira no bolso e seguiu para casa.

O moleque j o esperava acordado,
depois de ter dormido em santa paz a noite anterior. O moo subiu as escadas
lentamente, despiu-se, e antes de se entregar s delcias do sono, examinou a
carteira e o contedo.

A carteira era de couro da Rssia
e fechada por uma fita de borracha. Abriu-a sofregamente e inventariou os
objetos que continha:

Dois recibos de cabeleireiro.

Um de alfaiate.

Duas contas sem recibo.

Uma flor seca.

Dois cartes da barca Ferry.

Uma letra por encher.

Trs advertncias amargas de
credores.

Trs notas de dois mil-ris.

Uma carta de namoro.

Aparentemente eram outras tantas
indicaes para saber quem era o dono do achado, que no valia a pena guardar.

Engano.

As contas estavam rasgadas
justamente no lugar onde devera estar o nome, e as cartas dos credores e de
namoro no tinham sobrescrito.

 Leve o diabo a dono disto!
exclamou o rapaz, que me fez construir tantos castelos no ar... Devia t-lo
adivinhado. O destino no me faz seno destas. Jos!

Veio o moleque.

 Acorda-me amanh s 11 horas;
preciso sair.

Dada esta ordem, meteu-se o rapaz
nos lenis, e o leitor pode fazer o mesmo se me est lendo de noite. Ao
captulo seguinte, saber quem era o rapaz e o que saiu da carteira.

CAPTULO II

Z. Y.

Coelho era o nome do mancebo que
festejara to lautamente o carnaval na ltima noite, que sara por ltimo do
hotel, que encontrara a carteira na Rua de S. Jos e ficara logrado nas suas
esperanas.

Tinha vinte e seis anos e exercia o
emprego que lhe dava para comer, vestir, e gozar a vida, desde que no quisesse
ir alm dos limites razoveis que a posio lhe impunha.

Nesse ponto,  que pegava o carro.

Coelho tinha mais ambies que
dinheiro, e no h pior situao que a de um homem cujo esprito est acima das
algibeiras. Ter a algibeira acima do esprito, dizem os poetas que no  coisa
de todo desejvel: estou que falam teoricamente.

Em todas as loterias, comprava um
meio bilhete que lhe saa invariavelmente branco. Um dia, conseguiu tirar
quarenta mil-ris, fato que coincidiu com a queda do ministrio de Caxias e a
morte de um parente chegado. Gastou os vinte mil-ris recebidos no aluguel do
carro, na compra de luvas para ir ao enterro, e deu o resto a um pobre.

Casamento rico era uma das suas
ambies, mas em vo alongava os olhos pela cidade; no aparecia noiva que lhe
ficasse  mo.

Coelho desistiu do intento.

Ultimamente, parecia resignado 
sorte. Comeou a viver solitrio, e desse programa s o carnaval o arrancou por
trs dias. Foi muito festejado pelos amigos e respectivas damas e fez coisas do
arco-da-velha. Mas aquela exceo acabou com o ltimo dia: na quarta-feira de
Cinzas, reatou o fio  regra.

O achado da carteira pareceu-lhe
providencial, e desde o lugar onde se deparara o misterioso objeto, at o fim
da Rua da Ajuda, foi fazendo mil castelos no ar.

J sabemos como se lhe dissiparam
todos. Ao dia seguinte, to pobre estava como na vspera.

S uma grande e excepcional
dedicao aos negcios pblicos poderia fazer que um rapaz fosse  repartio
depois de uma tera-feira de carnaval. Coelho levantou-se da cama,  hora em
que o criado foi cumprir a ordem de o acordar.

Almoou pouco e tratou de
vestir-se para sair. Antes disso, olhou de relance a carteira que estava sobre
a secretria.

 Jos! disse ele.

 Senhor.

 Hs de levar um anncio ao Jornal
do Comrcio.

E olhando a carteira:

 Se tu soubesses, miservel
objeto, as iluses que me deste ontem! E com as iluses os terrveis desenganos
que sofri... Por que no trouxeste em teu bojo uns vinte contos pelo menos? 
Era pouco, mas era alguma coisa...

Dizendo isto, foi maquinalmente
abrindo a carteira. Inventariou de novo os papis que havia dentro; abriu de
novo todos os escaninhos; nada! Ia j deit-la a um canto com um gesto de
desespero, quando, entre duas notas de dois mil-ris, descobriu um papelinho
dobrado.

 Que  isto? dizia ele.

O papel era fino, azulado e
perfumado. Cheirava a amores. Coelho desdobrou-o rapidamente com a ansiedade
prpria de quem fareja mistrios. A letra era bem talhada e segura; poucas
linhas eram, e diziam assim:

18 de Fevereiro.

Meu C...

Meu tio vai amanh para a Tijuca,
e minha tia h de ter visitas. Vem amanh ao jardim; estarei na janela do fundo,
e contar-te-ei o que se passou.  Tua L...

Eu faltaria  verdade e s regras
mais elementares do romance se no dissesse que o rapaz leu e releu esta carta
muitas vezes. No faltaria tanto s regras do romance, mas faltaria com certeza
 verdade, se no contasse que  sexta ou stima leitura o nosso heri deu dois
pulos no gabinete, pregou os olhos no teto e chegou a carta aos lbios.

A causa dessa alegria, na
aparncia inverossmil, sab-la- o leitor desde que eu lhe disser que o papel da
carta era marcado, e que a marca constava de duas iniciais, Z. Y., que estas
duas iniciais eram as de Zzimo Ypsilanti, e que este nome arrevesado era de um
grego que naquele tempo negociava nesta praa.

  dele, no h dvida, dizia o
rapaz consigo; creio que em nenhuma outra lngua h quem se chame Z. Y. No; Z.
Y. tem um perfume helnico. Trata-se da sobrinha de Ypsilanti;  preciso tirar
daqui as vantagens possveis. Exploremos o assunto.

Toda esta cena se passara em
frente do moleque, que, desde que viu o senhor dar pulos na sala, concluiu
logicamente que estaria nas fronteiras da demncia. Conseqentemente, deu dois
passos para a porta com idia de fugir apenas visse da parte do Coelho algum
gesto menos pacfico, e ir logo dar parte ao inspetor do quarteiro, medida
alis inteiramente intil, porque o inspetor s estava em casa das Ave-Marias
em diante.

 Jos, disse Coelho, no 
preciso ir levar o anncio ao Jornal do Comrcio. Viste-me dar dois
pulos h pouco?

 Vi, sim, senhor.

 Foi de alegria, Jos; recebi uma
carta de meu irmo que est na Bahia. Fizemos as pazes, e  por isso que estou
alegre. Recomendo-te, porm, no digas isto a ningum; toma estes seis
mil-ris.

E deu-lhe as trs notas que achara
na carteira.

 Sim, senhor, obrigado.

Jos saiu do gabinete mais
tranqilo, contente com a explicao e o dinheiro.

CAPTULO III

L.

Coelho no saiu de casa antes das
cinco horas. Gastou todo o tempo a investigar um meio de tirar vantagem da misteriosa
carta, e to depressa organizava um programa, como o achava impraticvel. Se os
reunisse todos em cinco atos e sete quadros, teria produzido um excelente
melodrama.

Aqui, perguntar naturalmente o
leitor se valia a pena gastar tanto tempo com uma carta que aparentemente no
dizia nada. Perdo  ignorncia do leitor esta pergunta infundada, e passo a
resumir as razes que justificam no meu heri as longas horas de meditao a
que se entregou.

Lcia Soares era uma moa de vinte
e dois anos, sobrinha da mulher de Zzimo Ypsilanti, e universal herdeira de
ambos. Ypsilanti passava por ter uma grande fortuna; aparentemente, tinha muito
pouco, e havia quem lhe no desse quinze contos por tudo; mas a maioria do povo
dizia que Ypsilanti era senhor de duzentos contos bem puxados. Os hbitos de
avarento davam alguma verossimilhana a este boato; vestia mal e
grosseiramente; gastava pouco, regateava muito e no dava nada a ningum. Se
fosse pobre, se ao menos a opinio o julgasse tal, aquilo seria refletida
economia; mas, com a fama de rico de que ele gozava, a economia era pura
avareza.

Ora, se a riqueza fazia de Lcia
uma das trs Graas, a natureza tinha-a feito uma das trs Frias. Uma testa
curtinha, uns olhos vesgos, pequenos e apagados, um lbio superior oblquo,
umas faces grossas, tais eram os dotes negativos que recebera do bero. A
inteligncia era como os olhos, vesga, pequena e apagada. A educao, porm,
fora algum tanto esmerada. Lcia tocava piano, sabia muitas coisas de costura,
desenhava bem e falava corretamente a lngua francesa.

Deram-lhe tais prendas os pais,
que desse modo quiseram emendar a natureza, e deixar-lhe alguma herana real.
Era rf desde a idade de 17 anos, e vivia com os tios, que a amavam e
procuravam faz-la feliz.

Coelho j a conhecia de algum
tempo; estivera com ela numa reunio em que lhe disseram que Lcia seria
senhora algum dia do melhor de duzentos contos de ris. Infelizmente, estava o
nosso mancebo  busca de outra herana de algarismo igual, com a diferena que
a dona em questo era excepcionalmente bonita.

Coelho sabia perfeitamente que a
riqueza deve rimar com a beleza, e ainda no compreendia naquele tempo o verso
solto. Agora, porm, que se achava desenganado de achar o casamento, j se
contentava com uma toante e a sobrinha do grego era justamente o que lhe
convinha.

De que maneira, porm, conseguiria
ele, com o auxlio de uma carta, entrar na posse dos bens de Ypsilanti?

A sua primeira idia foi menos
ambiciosa. Sabendo que o tio de Lcia era um velho irritvel e severssimo,
lembrou-se de ir ameaar o namorado de Lcia, e restituir-lhe a carta mediante
recompensa. Este meio, porm, pareceu-lhe indigno, e foi posto de lado.

s cinco horas, nada tinha
resolvido; saiu para jantar no hotel; e teve a felicidade de no encontrar
conhecido. Enquanto comia, pensava no caso. Ao meio do jantar, trouxe-lhe o
criado um jornal para ler.

Recusou.

 Quer alguma ilustrao?

 No quero nada.

Dizendo isto, arredou os jornais
com a mo. Nesse momento, porm, leu o ttulo de um captulo do folhetim que um
dos jornais estava publicando.

O ttulo era:  De noite, todos
os gatos so pardos.

 Ah!

Este grito soltado por Coelho chamou
a ateno dos fregueses e dos criados da casa. Um destes correu assustado para
ele e perguntou se se engasgara com algum osso. Coelho observou-lhe que,
estando a comer ervas, era humanamente impossvel engasgar-se com um osso, e
pediu-lhe polidamente que o deixasse acabar de jantar.

A razo do grito  clara: o
provrbio era um raio de luz.

 De noite, todos os gatos so
pardos, repetia ele consigo; irei ao jardim de Lcia em lugar do namorado... e
o resto  sorte.

Tendo adotado um plano, disps-se
a jantar com mais tranqilidade. Comeu e bebeu  larga, pediu charutos e caf,
recostou-se na cadeira, e esperou que a digesto se fizesse em boa paz.

CAPTULO IV

NO JARDIM

s ave-marias estava Coelho em casa
pronto e preparado para ir  entrevista. No sabia bem o que lhe aconteceria
nessa noite, mas tinha uma tal ou qual confiana no resultado da aventura.

Quase a pr o p na rua,
surgiram-lhe no esprito duas dvidas.

Primeiro:

Seria tarde ou cedo a hora da
entrevista?

Segundo:

No iria ele encontrar-se com o
outro, visto que a carta j estava aberta, o que era sinal de que ele a
houvesse lido?

Durante um quarto de hora, esteve o
nosso Coelho indeciso. A empresa chegou a parecer-lhe extravagante.

 O que estou fazendo  absurdo,
dizia ele sentando-se no sof; no se faz isto na vida real, em 1863, na cidade
do Rio de Janeiro. Estou simplesmente doido. Isso contado no se acredita.

Mas com estas idias lhe foram
aparecendo outras. Uma voz secreta dizia-lhe que tentasse a empresa, porque o
desenlace seria completo. Coelho ainda procurou chamar a razo em seu auxlio,
mas era tarde: o destino havia-se apoderado dele.

O jardim tinha uma porta para a
rua. Eram oito horas da noite; e, posto que a rua no fosse muito freqentada,
era ainda cedo para poder impunemente penetrar no jardim.

Coelho encostou-se ao muro, e
estando a porta aberta, enfiou o olhar para dentro. Descobriu duas janelas, uma
fechada e outra aberta; no interior, havia luz.

Entretanto, nem no jardim, nem na
casa havia o menor vestgio de gente.

 Naturalmente, est ela na sala,
pensava Coelho; o diabo  eu no saber a hora; pode vir algum e
descobrir-me... E se me fecham a porta? O outro talvez tenha alguma chave...

Nesse ponto, ouviu passos na
calada. Um vulto aproximava-se costeando o muro.

  ele, pensou Coelho.

Sua primeira idia foi recuar, ou
passar para o lado oposto; mas refletiu que esta mesma preveno podia
descobrir o seu intento.

O vulto veio andando, andando,
andando, at que enfrentou com ele.

Parou.

Coelho estremeceu.

 Estou perdido! disse ele
consigo.

O vulto meteu a mo no bolso sem tirar
os olhos de Coelho, sacou um objeto que ele no viu, mas que sups ser um
ferro; tirou o chapu e disse polidamente:

 Faz favor do fogo?

Coelho respirou.

Deu-lhe o charuto em que o homem
acendeu o seu e prosseguiu viagem, sem voltar os olhos para trs.

 Sempre sou um medroso! disse
Coelho consigo. Creio que se o homem me lana a mo, eu morreria de medo. Mas
tambm o caso  arriscado; se o meu rival se apresenta, estou perdido; pelo
menos, entro em uma luta desagradvel.

Neste caminho das suas reflexes,
Coelho passou do medo ao terror. Parecia-lhe ver j diante de si o desconhecido
namorado, munido de um cacete, ou de um punhal, e ele morto ou espancado, na
sala da polcia, interrogado pela autoridade, examinado pelos mdicos; e no dia
seguinte, o seu nome impresso em todas as folhas, e o caso contado com todos os
pormenores.

Quis fugir.

Mas, de repente, sentiu um rumor
no jardim.

Era a moa que chegava com
estrpito, sem dvida para dar sinal ao namorado, caso ele estivesse nas imediaes.

Coelho no pde resistir.

Deitou um olhar  rua; ningum o
via nesse momento. Persignou-se e entrou no jardim.

Lcia viu aparecer  porta o vulto
e fez um sinal com o leno. Coelho aproximou-se cautelosamente da janela, que
ficava elevada. A idia da existncia de algum co atravessou-lhe o esprito:

 Oh! meu Deus! disse ele.

E estacou.

Mas a moa estava presente e no
havia recuar.

Continuou a andar na direo da
janela.

 s tu, Carlos? perguntou a moa.

 Sou eu, disse Coelho, com voz
fraca.

 No pude vir mais cedo, disse
Lcia, porque minha tia quis por fora que eu ficasse na sala. Agora pude sair
sem que ela reparasse. A nossa conversa no pode ser longa. Ningum te viu?

 Ningum, murmurou Coelho, que
no queria ser descoberto pela voz.

 Sabes o que tem acontecido?

 No.

 Meu tio anda desconfiado do
nosso amor.

 Ah!

 Ouvi-o no domingo estar
conversando com minha tia e dizendo que havia de saber quem era o brejeiro que
andava a namorar-me, e que lhe havia de quebrar as costelas.

Ouviu-se um suspiro; ele pensou
que era algum de casa, mas reparou que era ela mesma.

 No te parece que estamos mal?
perguntou a moa.

 Sim, disse Coelho.

 Mas que tens hoje? disse ela. Ests
to calado! No me respondes seno com palavras soltas. Sofres alguma coisa?

 Oh!

  aquela dor de peito que te
continua a dar?

 .

 Pobre Carlos!

Neste momento, ouviu-se um rumor.
Era um pisar mansinho na areia do jardim.

 Que ser? pensou Coelho.

 Guardei uma flor para ti, disse
a moa. Queres?

 Quero, grunhiu Coelho.

 L vai.

E Lcia debruando-se na janela
atirou a flor, que Coelho apanhou e levou aos lbios.

 Cus! que  isto? murmurou a
moa.

Era a voz de um co que se ouvira,
e a voz de algum que animava o co.

 H algum?

 H, disse Coelho mais morto que
vivo.

 H de ser o preto.

E olhou na direo do latido.

Coelho no queria saber se era ou no
o preto; a sua idia definitiva era dirigir-se  porta e pr-se ao fresco.

Nesse sentido, comeou a recuar;
mas o latido do co aproximava-se e dentro de pouco tempo um vulto de homem e
um vulto de co se apresentaram em frente de Coelho.

O co parou e pareceu consultar o
homem. Este fez um sinal e chegou-se a Coelho.

Coelho encomendou a alma a Deus.

Um grito ouviu-se da janela. Era
Lcia, que desapareceu imediatamente.

 Quem  o senhor? disse o vulto.

 Eu... balbuciou Coelho.

 Sim... diga!

 Eu...

 Eu quem?

E como Coelho no respondesse, o
vulto pegou-lhe no brao e procurou arrast-lo para dentro. Coelho resistiu.

 Vou dizer tudo, gritou ele.

 Venha c dentro; estaremos mais
a gosto.

Era impossvel resistir; Coelho
acompanhou o vulto.

 CAPTULO V

O VULTO

Ao rs-do-cho, e por baixo das
janelas, havia uma sala, com uma mesa e poucas cadeiras, iluminada por um bico
de gs.

A entraram o vulto, Coelho e o
co.

Este foi acocorar-se a um canto
com os olhos em Coelho  espera de um sinal do vulto.

Coelho e o vulto encararam-se
antes de se sentarem.

 Ah! exclamou o vulto.

 Ah! exclamou Coelho.

 Pois  o senhor?

 Eu...

 Temos o eu outra vez, disse
o vulto, que era nem mais nem menos Ypsilanti.

 Vou explicar-lhe tudo, disse
Coelho, resolvido a contar a histria da carteira, o mau pensamento que tivera,
e obter assim o perdo do que acabava de fazer.

 Sente-se, disse Ypsilanti.

Coelho obedeceu. Ypsilanti
sentou-se em frente dele, do outro lado.

 O senhor sabe, disse o velho tio
de Lcia, que acaba de fazer uma coisa muito feia.

 Sei, sim, senhor.

 Uma coisa horrvel, que eu no
lhe perdoarei jamais?

Coelho estendeu a mo:

 Se me quiser ouvir, disse ele.

 Ouvi-lo? Mas que me dir o
senhor para justificar o que acaba de fazer?  desse modo que pretende haver
alguma coisa que possuo? Est em minhas mos, e eu posso fazer do senhor o que
quiser. Que diria o senhor se eu o denunciasse  polcia como ratoneiro?

 Senhor!

 E ratoneiro  o senhor, porque
tirar um par de galinhas de um quintal e um par de contos da algibeira de um
homem honesto,  a mesma coisa; s difere o meio. O senhor quis tirar-me um par
de contos...

 Enfim,  disse Coelho ansioso
por explicar tudo, e chamar o furor do velho para o verdadeiro ratoneiro, como
ele disse,  enfim, eu espero convenc-lo de que no sou to culpado como
pareo.

 H de ser difcil.

 No .

 Estou ouvindo.

Ypsilanti tirou um charuto do
bolso, acendeu e comeou a fumar tranqilamente, enquanto Coelho comeava a
narrao do achado da carteira e do pensamento que tivera: no lhe ocultou que
a circunstncia de no ter dinheiro, que a ambio de possuir alguma coisa o
levara quele erro.

 Tal , senhor Ypsilanti, o
motivo que aqui me trouxe. Foi um erro de que eu me envergonho, mas o senhor
pode ver na franqueza com que eu confesso tudo, o arrependimento que j tenho
do que fiz. Agora, s me resta pedir o seu perdo... ou expor-me ao que o
senhor quiser fazer.

Ypsilanti soltou uma gargalhada.

Coelho enfiou.

 De que se ri? disse ele.

 De que me hei de rir? Da sua
imaginao fecunda. Em to pouco tempo, criou o senhor um romance, que eu
poderia aceitar se j no tivesse estes cabelos brancos.

 Pois cr...

 No creio em nada do que o
senhor me disse...

Coelho encolheu os ombros.

 Ento, no sei o que lhe hei de
dizer...

 A verdade.

 J a disse.

 No; a outra.

 No h seno esta.

 Quero ouvir a outra verdade, que
 a nica verdadeira. E no  melhor ser franco? Por que no me confessa que
ama minha sobrinha, que esta lhe corresponde, e que o senhor nutre a esperana
de casar com ela?

Ypsilanti disse estas palavras com
um modo to brando que Coelho comeou a ver as coisas por outra face. Esperava
encontrar um tigre, e achou-se diante de um cordeiro.

Cordeiro no o era ele tanto,
porque logo depois das palavras acima transcritas, rompeu nestas:

 Vamos! fale, meu atrevido! meu sedutor
de donzelas!

 Eu j lhe disse a verdade.

 No disse. A verdade  que o
senhor namora a pequena h alguns meses, que tem vindo algumas vezes ao jardim,
segundo me consta, que lhe escreve e  correspondido.

Coelho fez um gesto para falar.

Ypsilanti continuou:

 E pensa que no sei a razo por
que me no tem falado?  porque receia que eu lha recuse. Sabe que eu tenho
fama de severo e que s admitirei casamento em condies vantajosas... Esta  a
verdade.

Ypsilanti estava outra vez com o modo
brando, e Coelho de novo se animou a tirar proveito da situao.

 Ora, conquanto eu deseje para
minha sobrinha um noivo rico, no fao disso questo principal. Pode ser pobre
e honesto. Se est nessas condies, por que no me fala? Era melhor; no daria
que falar.

Luziu nos olhos de Coelho a posse
de algumas dezenas de contos de ris. Era argumento melhor que todos os
raciocnios. A disposio de Ypsilanti o animou a dar mais um passo.

 Pois, senhor Ypsilanti, disse Coelho;
tudo confesso;  verdade, eu amo sua sobrinha e peo-lha em casamento. A
ocasio no  talvez prpria, mas...

 Prpria , disse Ypsilanti; mas
confesse que procedeu muito indignamente at hoje, e que, se eu no fosse uma
boa alma, o senhor devia estar morto a esta hora.

Dizendo isto, bateu o velho com a
mo na mesa; o co grunhiu do seu lugar; e Coelho cuidou seriamente que ainda
no estava salvo.

Mas tudo passou depressa.

 Pois, senhor, venha amanh
pedi-la oficialmente. E prometa desde j que a h de fazer feliz.

 Juro! disse Coelho. E peo-lhe
que acredite, senhor Ypsilanti, que no  a idia da sua riqueza que me fez
amar sua sobrinha, mas...

Ypsilanti sorriu.

 Bem sei, bem sei, disse ele.

Depois acompanhou-o at  porta do
jardim.

 At amanh.

 At amanh.

CAPTULO VI

MISTRIO

Fechou-se a porta do jardim.
Coelho parou na rua, atnito. Durante um quarto de hora, no pde dar um passo.

Tudo lhe parecia um sonho.

De duas uma:

Ou tinha de ser metido numa terrvel
embrulhada, de que era incerto que sasse bem, ou ento, a sua felicidade era
certa.

Mas como supor a segunda hiptese?

Enganar o tio era possvel; mas a
sobrinha? Quando esta o visse reconheceria perfeitamente o engano e teria
franqueza para dizer ao velho que o seu namorado no era ele mas outro. O velho
perdoaria aos dois, e descarregaria sobre ele todo o furor.

Coelho caminhou lentamente para
casa meditando no que acabava de ocorrer. Cada vez se lhe entranhava mais no
esprito a convico de que a situao era para ele terrvel; e ao mesmo tempo
perguntava a si mesmo como pudera crer que fosse possvel conseguir alguma
coisa nas condies em que lhe apareceu a carta.

 Eu estava doido, sem dvida,
dizia consigo Coelho. Supor que poderia dali sair alguma coisa boa, era
realmente ter perdido o juzo.

Quando chegou a casa estava
resolvido a abrir mo da sobrinha de Ypsilanti.

 Mas ser isso possvel?
perguntava Coelho a si mesmo; depois do que se passou, conhecendo-me ele, ainda
que pouco,  impossvel deixar a empresa. Em rigor, eu devo-lhe uma satisfao.
No h remdio. Em que situao me fui colocar!

Depois a idia dos contos ris de
novo lhe apareceu com todo o seu cortejo de gozos e fantasias.

 Rico, dizia ele; rico! Oh! isto 
um sonho! Eu posso estar rico daqui a um ms. Foi a minha estrela que me levou
l; est dito.  E poderia satisfazer a sua nsia de fazer figura.

Pelas quatro horas, conseguiu
fechar os olhos.

Mas os sonhos continuaram os clculos;
e o nosso Coelho acordou tarde, bem disposto, risonho e quase rico; pelo menos,
rico de imaginao.

O moleque comeou a experimentar a
feliz mudana operada no nimo do senhor. No recebeu o pontap matinal de
costume, e teve o gosto de assobiar uma ria sem medo de interrupo.

Coelho mandou comprar um par de
luvas brancas, e encomendar um carro, preparou-se, perfumou-se, e ensaiou-se
para a arriscada empresa. Enquanto no saa de casa, tudo parecia ir
facilmente, mas apenas se meteu no carro, e este comeou a rodar pelas ruas da
cidade na direo da casa do grego, tudo se foi alterando no esprito do rapaz.

 Mas eu estou vivendo em pleno
romance de ontem para c, dizia o msero; isto  uma loucura. A rapariga vai reconhecer-me,
adivinhar tudo, ou antes, no adivinhar nada, mas compreender ao menos que
no sou eu o namorado, e tudo se desfaz e eu estou em pior posio do que
ontem. O velho, apesar da confisso que lhe fiz, no me h de perdoar a
audcia, desde que souber que eu efetivamente a pratiquei. Tudo isso  rematada
loucura.

E o carro ia andando.

Ento, voltava  mente de Coelho a
idia do dinheiro, e esta doce imaginao o seduzia e lanava uma espcie de
vu sobre os perigos que ele antevia. Imaginava um belo prdio, carros, bailes,
jias, passeios, todos os sonhos de um homem que no tem e quer possuir.

Mas, como o carro andava sempre, e
o momento decisivo ia se aproximando, Coelho tornava aos seus terrores, e de
novo hesitava se devia ir  casa do velho ou voltar para trs.

No meio dessas alternativas
lembrou-lhe um meio que conciliava as esperanas com os receios.

 Entro, pensava ele; o velho
recebe-me; fao o meu pedido. Mandam vir a pequena, e apenas esta aparecer,
antes que saiba do assunto, fao-lhe um gesto para que se no oponha, como quem
lhe explicar o caso depois. Ela imaginar que estou de acordo com o namorado,
e aguardar a explicao. Quando vier a ocasio, procurarei expor a verdade.
Sim, este  o verdadeiro meio.

Com este pensamento foi at  casa
de Ypsilanti. O velho j o esperava com ansiedade; recebeu-o cortesmente, ainda
que no sem um ar severo, que alis lhe era peculiar.

Feitos os cumprimentos e presente
a tia de Lcia, exps Coelho o objeto da sua visita, proferindo um pequeno
discurso anlogo ao ato, que o velho ouviu com um significativo meneio de
cabea.

 Pela minha parte, disse este,
consinto no pedido que faz; mas  mister que minha sobrinha consinta tambm.
Vou mandar cham-la.

D. Manuela, esposa de Ypsilanti,
dignou-se aprovar a resposta do marido e mandou chamar Lcia. No tardou que a
sobrinha aparecesse  porta, convenientemente vestida, e com os olhos baixos.

Coelho estremeceu.

No contara com este gesto de modstia,
to natural da moa que  pedida para casar, e no sabia como fazer o gesto que
devia salvar a situao.

Lcia aproximou-se lentamente do
grupo.

 Meu tio, murmurou ela.

 Senta-te, Lcia, disse D.
Manuela.

Lcia sentou-se, sempre com os olhos
pregados no cho.

Coelho estava em suores frios.
Debalde olhava para ela, a moa no levantava os olhos. Comeou a tossir para
ver se ela levantava os olhos. Ypsilanti, vendo a insistncia da tosse, mandou
fechar a janela que ficara por trs de Coelho.

Tudo estava perdido.

 Lcia, disse o velho tio, este
senhor vem pedir-te em casamento. Aceitas o seu pedido?

Houve um silncio.

Vai olhar para mim,  pensou
Coelho,  tudo est acabado.

 Ento? disse D. Manuela.

 Aceito.

 Tudo est arranjado, disse
Ypsilanti; resta marcar o dia do casamento.

Outro silncio.

Lcia no levantara os olhos do
cho. Coelho estava em brasas. Esperava o momento em que ela ia levantar os
olhos e soltar um grito de surpresa.

Como ela insistia em no olhar
para ele, achou ele que o mais prudente era esquivar-se quanto antes e, por
meio de uma carta, explicar-lhe tudo.

Ia j a levantar-se, quando
Ypsilanti lhe disse:

 Toma ch conosco, Sr. Coelho?

Coelho! O nome prprio do homem!
Era impossvel que, ao ouvir o nome de Coelho, a moa no levantasse os olhos
com pasmo.

Nada!

Esta surpresa foi a maior sensao
que o nosso heri tivera at aquele momento.

 Ser surda? perguntou ele. Mas
no; ontem ouvia perfeitamente os meus monosslabos.

 Ento, Sr. Coelho? repetiu
Ypsilanti. No toma ch conosco?

 Peo desculpas.

 E eu no lhas dou,  acudiu dona
Manuela,  h de tomar ch.

 Minha senhora; -me impossvel,
disse Coelho com os olhos pregados em Lcia; tenho um objeto imperioso que me
impede de aceitar este gracioso convite.

Coelho disse estas palavras com
voz clara e firme. Lcia moveu a cabea para ele.

Coelho nem teve tempo de respirar;
fez um gesto com os olhos, enquanto a moa, parecendo no reparar no gesto,
volvia a cabea para o tio e tia, e mostrava-se completamente senhora de si.

 No entendo, concluiu entre si o
rapaz.

Conversaram ainda algum tempo, at
que o pretendente se despediu sem que a noiva lhe desse o menor sinal de
surpresa. Parecia que o amava h muito tempo.

 Que mistrio ser este? dizia
ele no carro; seja o que for, a moa est cada; vou enfim ser rico.

CAPTULO VII

A SOMBRA DE BANQUO

Coelho abenoou o acaso e o
carnaval, autores do achado da carteira annima e da misteriosa carta que o
levou  fortuna.

Comeou a freqentar a casa de
Ypsilanti, logo no dia seguinte,  espera de uma ocasio em que pudesse esclarecer
o mistrio que parecia estar envolvido na indiferena com que Lcia o ouviu e
aceitou.

Durante oito dias, no pde ter a
ocasio desejada.

No nono dia, porm, alcanou
ensejo de falar a ss com a noiva, e desde as primeiras palavras notou que ela,
em vez de lhe dizer alguma coisa a respeito da situao em que se achava,
conversou placidamente dos seus planos futuros.

 Lcia, disse ele, aproveito esta
ocasio para explicar-te a nossa situao.

 Que situao?

 A situao em que me coloquei
para contigo. Naquela noite em que fui ao jardim conversar...

 Ah! eras tu? perguntou ela
admirada.

Mais admirado, porm, ficou o
nosso Coelho. Eras tu! Ento ela confessa que, dez dias antes, supunha ter falado
ao outro namorado, e apesar disso ia casar com ele, sem nenhum escrpulo nem
resistncia?

Havia a um mistrio. Como
descobri-lo?

 De um modo simples, disse Coelho
consigo mesmo; pergunto-lho.

E depois de um silncio:

 Lcia, pergunto-lhe; admiras-te
de que fosse eu quem naquela noite estava no jardim; supunhas ento que era o
outro... Quem?

Lcia franziu a testa, levantou a
cabea, mediu e rapaz de alto a baixo e saiu da janela.

 Est tudo perdido, pensou
Coelho; l se me vai a pequena, e com ela... Reparemos o erro.

O erro no era difcil reparar.
Lcia parece que esperava por isso mesmo.

 Olhe, disse ela, h um mistrio
aparente, mas uma coisa muito natural, que eu s lhe explicarei depois de
casada.

E disse isto com um ar to mimoso,
que por um triz no endireita a boca.

Coelho deu-se por satisfeito.

Foi marcado o dia do casamento e
comearam a correr os banhos. Lcia estava mais alegre que a mais alegre moa
deste mundo; Ypsilanti dignou-se abrir um riso prazenteiro; e Coelho fez
grandes promessas aos seus credores.

Dez dias antes do casamento,
estava Coelho em casa devaneando e construindo os mais soberbos castelos,
quando o moleque veio dizer-lhe que um sujeito mal-encarado o procurava.

 Conheces quem seja?

 Nunca o vi, no, senhor.

 Manda-o entrar.

Da a pouco chegava Coelho  sala
e dava com um homem alto, vestido de preto, sobrecasaca abotoada, cabelos em
desordem e olhar ameaador.

Coelho ps-se em guarda.

 Que me quer?

Silncio.

 Que me quer? repetiu ele.

 Tenho a honra de falar ao Sr.
Coelho?

 Sim, senhor.

 Queria dar-lhe duas palavras.

 Pode falar.

Sentaram-se.

 Chamo-me Carlos...

 Ah!

 Ah?

Coelho estremeceu.

O homem continuou:

 Carlos Alves da Anunciao. J
ouviu alguma vez pronunciar o meu nome?

 No me lembra...

 Lcia devia casar comigo.

 Ah!

 Ah?

Coelho tornou a estremecer.

 E foi o senhor que me arrancou a
felicidade das mos, quem me lanou no abismo de todas as misrias, porque
eu...

No pde continuar; tapou a cara
com as mos, e pareceu,  pareceu ao menos,  chorar  larga.

Coelho ficou comovido.

 Peo-lhe, disse este, que no me
acuse...

 No o acuso de nada, respondeu Alves,
eu apenas digo que foi o senhor quem me fez desgraado, no por vontade
prpria, mas por irriso da minha sorte. Seja o que Deus quiser...

Alves parecia mais calmo.

 Falei-lhe um pouco exaltadamente,
mas  a dor que me obriga a estes arrebatamentos. Se soubesse como eu sofro!

 Mas que lhe poderei eu fazer
agora? disse Coelho.

O homem pareceu no ouvir essas
palavras.

 s vezes, cuido que estou doido.
Sinto um fogo em mim; uma ardncia... Ah!

E, dizendo isto, comeou a passear
pela sala com grandes passos e sacudimentos de cabea.

De repente, parou o homem.

 Sr. Coelho, disse ele, eu quero
perdoar-lhe e no posso.

 Perdoar-me? Mas que culpa...

Coelho estacou.

Estaria o homem informado da
entrevista no jardim, e teria assim descoberto o achado da carteira? Nesse
caso, era positivo que a noiva estava de acordo com o antigo namorado.

Coelho perdia-se num mar de
conjecturas.

 Perdoar-me o qu?

 Perdoar-lhe a minha morte.

 A sua morte?

 Sim, porque eu vou morrer.

 No! no deve morrer! Mas, em
todo caso, j lhe disse, que tenho eu com isso? Que me quer o senhor?

Alves encarou-o, ps o chapu na
cabea e saiu.

CAPTULO VIII

A INDENIZAO

Coelho ficou atnito.

A entrada e a sada daquele homem
seria inexplicvel se ele no estivesse doido. S a loucura podia explicar
semelhante procedimento.

Coelho deu graas a Deus de se ver
livre do doido, e deu ordem ao moleque de nunca mais abrir a porta quele
sujeito.

A ordem era intil.

O homem reapareceu  porta da
sala.

 Ainda aqui! exclamou Coelho.

  verdade, respondeu Alves.
Venho propor-lhe um meio de nos reconciliarmos.

Coelho fez um gesto de
impacincia.

 Mas, senhor, ns nunca estivemos
conciliados, nem brigados. No sei que haja necessidade...

 H, respondeu tranqilamente o
homem. Quer ouvir-me?

 Fale.

 Eu disse-lhe h pouco que amava
a sobrinha de Ypsilanti.  Coelho fez um gesto afirmativo.  Era mentira, disse
Alves.

 Ah!

  verdade, era mentira, no a
amava; o meu fim era fazer um bom casamento, isto , um casamento rico.

 Ainda bem que o confessa, disse
Coelho, respirando.

 Confesso.

Coelho levantou-se.

 Nesse caso, disse ele, se e
senhor tem a impudncia de confessar que no amava a pessoa em questo, se
confessa que queria um casamento rico, por que razo est aqui?

 Estou aqui por uma razo bem
simples, respondeu tranqilamente o homem.

 Qual?

 Porque o senhor...

E parou.

 Porque eu... disse Coelho.

O homem cravou os olhos nele.

 Porque eu... repetiu Coelho.

 Porque o senhor tambm a no
ama.

 O qu? disse Coelho espantado.

 O senhor tambm a no ama...

 Essa agora!...

 O seu fim  tambm fazer um
casamento de dinheiro... concluiu calmamente o homem.

Coelho estava estupefato.

 De que se admira? perguntou
Alves.

 Da sua audcia.

 Em que consiste a minha audcia?

 Meu caro senhor, isto  ridculo,
disse Coelho encolerizado; a ningum dou o direito de duvidar dos meus
sentimentos.

 No digo que o senhor d esse
direito a ningum, retorquiu Alves sentando-se sossegadamente, mas eu  que o
tomo por minhas mos.

 Mas enfim que quer o senhor?

Alves assumiu um ar melanclico, e
respondeu:

 Que o senhor me indenize da
perda que sofro em no casar com aquele anjo.

Coelho no podia cair em si. Alves
falava com tanta segurana, que era impossvel no supor nele uma resoluo
inabalvel.

 Ento, quer liquidar esse
negcio comigo?

 Creio que o senhor no fala
srio.

Coelho comeou a refletir. No lhe
convinha ter por inimigo um homem, cuja audcia se manifestara j to
singularmente. Tratou de ladear a questo.

 Eu no hesitaria em socorr-lo,
disse ele, caso o senhor precisasse, mas confesso que no possuo nada.

Alves sorriu.

 H de possuir.

 Mas...

 Eu no venho pedir-lhe socorro,
mas uma indenizao. Saibamos de uma coisa antes de tudo: adota essa indenizao
em princpio?

 Em princpio, nego-lha.

 Ah!

Houve um silncio.

 Est bem, disse Alves, deixemos
os princpios; vamos aos fatos. Est pronto a dar-ma?

 Mas, senhor, isto  uma ladroeira,
disse Coelho, levantando a voz para que o moleque o ouvisse.

 No, senhor,  uma indenizao.

 Pois bem, disse Coelho, depois
de alguns instantes de reflexo. Vejamos as suas condies.

 Bravo! vejo que nos entendemos.
As minhas condies so: dez contos de ris pagos dois meses depois do seu
casamento.

 Dez contos! exclamou Coelho.

 Sem lhe rebater um real; 
largar ou pegar. No  mau; o senhor deve entrar na posse de uns cem contos de
ris pelo menos, alm das esperanas; e nega uns pobres dez contos a quem lhe
cede o lugar?

 Nada, no lhe dou um vintm,
disse resolutamente Coelho.

 Srio?

 Srio.

 Olhe l.

 J disse; no lhe dou um vintm.
Isto seria ridculo se no fosse infame. Peo-lhe que se retire.

Alves soltou uma gargalhada, ps o
chapu na cabea, cumprimentou o dono da casa e saiu dizendo:

 At  vista.

CAPTULO IX

AH!

Coelho respirou apenas se viu s.
Repetiu ao moleque a ordem que lhe havia dado e preparou-se para dar boas
notcias  noiva.

Logo nessa noite, estando com ela,
falou na estranha visita que lhe fizera Alves.

 Sabes quem foi hoje  minha
casa?

 Quem foi?

 O Carlos Alves.

 Ah! disse ela empalidecendo.

 No o recrimino por isso; sei
que foi o teu primeiro namorado. Quero s dizer-te que escapaste de uma
infmia.

 Como?

 Aquele homem no era digno de
ser teu marido, continuou Coelho; era um infame. Se soubesses o que praticou
comigo...

Lcia estava perturbada com o
assunto da conversa.

 Falemos de outra coisa, disse
ela.

 Compreendo o teu melindre, e
respeito-o. Depois de casado, contar-te-ei tudo. No imaginas... Queria casar
contigo por interesse.

Lcia arregalou os olhos.

 Deveras? disse ela.

  verdade; teve o descaramento
de o confessar;  um cnico. Eu te contarei tudo depois.

A conversa no passou alm.

Correram os dias sem novidade.
Aproximou-se o dia do casamento. Ypsilanti queria dar um banquete, que o noivo
aprovou, mas a mulher e a sobrinha foram de opinio que o casamento  capucha
era melhor.

 Pois v  capucha, disse o
grego.

Na vspera do casamento, o noivo
deu parte a dois ou trs amigos ntimos, e foi dar a ltima vista de olhos na
casa. A casa estava ornada com certo luxo, para o qual teve Coelho de pedir
algumas somas emprestadas. De noite, foi  casa da noiva, mas voltou cedo para
descansar e dar umas ltimas providncias.

No se admirou pouco de ver a sala
com luz, coisa que no havia durante a sua ausncia.

 H de ser alguma visita, pensou
ele.

Subiu as escadas.

Cus!

Era Alves!

O ex-namorado de Lcia estava
assentado no sof brincando com uma bengala. Defronte dele estava o moleque
pedindo-lhe que sasse.

 Entra a propsito, disse Alves, o
seu moleque conhece pouco os deveres de hospitalidade. Quer pr-me fora daqui.
Diga-lhe que  uma grosseria.

Coelho fez um sinal ao moleque,
que se retirou.

Apenas ficou s com o ex-rival,
disse:

 Sr. Alves, h de convir que isto
vai passando os limites, no estou disposto a sofrer as suas importunaes, j
lhe disse que...

 O senhor disse-me que no me
daria os dez contos de ris, cuidei que estava brincando, porque, na situao
em que o senhor se acha, s por brincadeira pode dizer uma monstruosidade de
tal calibre. Os dez contos ho de vir ter s minhas mos.

 Ameaa-me?

 No ameao; discuto. No quer
pagar-me a indenizao que lhe peo?  um desejo impossvel de satisfazer. Vou
dizer a razo.

E metendo a mo no bolso tirou um
papel.

 Sabe o que  isto?

 No.

  uma carta.

Coelho levantou os ombros.

 Uma carta de sua noiva.

 Ah!

 Se o senhor me no der o
dinheiro, publico-a.

 Mas isto  uma...

  uma defesa. Quer ler a carta?

Coelho fez um gesto de recusa.

 H de confessar, disse este, que
o senhor  muito infame!

 Mais talvez do que o senhor
pensa; disse tranqilamente Alves; no tenho s esta carta; tenho mais trinta e
sete cartas, cada qual mais ardente. Imagine o efeito desse regimento epistolar
em letra redonda.  coruscante.

 Basta, disse Coelho;
sacrifico-me, j que  preciso. Que condies quer?

 J lhe disse: dez contos de ris
a pagar daqui a dois meses. Trago a letra.

  previdente.

 A previdncia  a me da
vitria.

Alves tirou do bolso uma letra,
que ali mesmo encheu, e Coelho assinou trmulo de raiva.

 Adeus, meu caro Sr. Coelho.
Ainda havemos de ser amigos.

Coelho no disse palavra.

Alves saiu saltitante e alegre.

A noite do pobre noivo foi
atribulada.

O dia seguinte, porm, desfez as
ms impresses da noite. Sorria-lhe a idia de que a fortuna mudava enfim. A
felicidade foi mais completa; logo de manh recebeu a visita do Alves, ia
dizer-lhe que apenas recebesse os dez contos de ris, receberia as trinta e
sete cartas de Lcia.

A cerimnia do casamento passou-se
sem novidade. Todos estavam alegres como  de costume nesses dias. O velho
Ypsilanti parecia haver recobrado a pouca alegria que tinha outrora; estava
brando como uma cera, esfregando as mos, piscava os olhos, todo ele era
ventura e prazer.

Que direi eu da noiva, que no
seja sabido por quantos tm assistido a um casamento? Estava acanhada, modesta,
reservada, mas no fundo do seu corao era imensa a alegria.

No menos feliz estava Coelho. A
mulher era positivamente um drago, mas em compensao era herdeira de um bom
par de contos de ris. Este era o principal objeto do amor do rapaz.

No admira, pois, que todo
entregue s delcias do noivado, o nosso Coelho de todo esquecesse o seu singular
credor. Correram as semanas sem ele dar por elas. No fim de dois meses,
bateu-lhe Alves  porta.

Coelho estremeceu quando o viu
entrar.

 Venho para cobrar a letra que me
deve, e que se vence amanh.

 Bem, disse Coelho, venha amanh.

 A que horas?

 s dez horas.

 C estarei. Passe bem.

 Passe bem.

E saiu Alves.

Coelho correu  casa do sogro.

Explicou-lhe com franqueza que
devia pagar uma letra.

Ypsilanti respondeu:

 No lhe posso dar o dinheiro que
me pede.

 Mas, senhor...

 No lhe posso dar o dinheiro que
me pede.

Coelho comeou a irritar-se.

 Mas, senhor, esta dvida de
honra, fi-la para salvar o decoro do seu nome.

E explicou-lhe tudo.

 Cus! exclamou o velho; ser
verdade isso que me diz?

 Purssima verdade.

Ypsilanti levantou os braos com
desespero:

 Oh! meu Deus! meu Deus!

 Que ?

 Mas eu no tenho dinheiro; no
sou rico como o senhor pensa; todos os meus haveres andam por oito contos.

 Ah! exclamou o rapaz
petrificado.

Imagina-se o desespero do pobre
rapaz quando soube do logro em que cara.

E o logro era talvez o menos; o
risco em que se achava com a dvida que contrara era o pior,  sem falar na
que fez para montar a casa.

Correu para a casa furioso; a
mulher foi a primeira que pagou as favas.

Tudo se arranjou entretanto.
Alves, sabedor das desgraas de Coelho, pela confisso que este lhe fez, houve
por bem perdoar-lhe a dvida.

 Pago com dez contos, disse ele,
o risco de que o senhor me livrou.

Coelho estava desesperado; julgou
ter dado um grande golpe na m sorte financeira, e fora vencido por ela; estava
mais pobre que dantes. Ficara-lhe s o amor.

Um dia, seis meses depois de
casado, e feliz, contou ele  mulher toda a cena da carteira, e perguntou-lhe por
que razo o aceitara to facilmente para marido, sabendo que no era ele o
namorado.

Lcia respondeu ingenuamente:

 Porque voc era mais bonito.
