Conto, Uma loureira, 1872

Uma loureira

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/.

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, de 5/1872 a 6/1872.

CAPTULO
PRIMEIRO

Havia grande agitao em casa do
comendador Nunes, em certa noite de abril de 1860.

No era comendador o Sr. Nicolau
Nunes, era apenas oficial da Ordem da Rosa, mas todos lhe davam o ttulo de
comendador, e o Sr. Nunes no resistia a esta deliciosa falsificao. A
princpio reclamou sorrindo contra a liberdade dos amigos, que desta maneira
emendaram a parcimnia do governo. Mas os amigos insistiam no tratamento, e at
hoje ainda se no descobriu o meio de recusarmos uma coisa que desejamos do
fundo dalma. Ora, o Sr. Nunes desejava do fundo dalma ser comendador, e
quando falou ao seu compadre, o conselheiro F., foi com a mira na comenda. O
conselheiro empenhou-se com o ministro, e este apenas consentiu em dar o hbito
ao Sr. Nunes. Graas aos empenhos, pde o candidato obter o oficialato.

Era ele um homem de 45 anos, um
tanto calvo, bem apessoado, nariz no vulgar, se atendermos no tamanho, mas
vulgarssimo se lhe estudarmos a expresso. O nariz  um livro, at hoje pouco
estudado pelos romancistas, que alis se presumem grandes analistas da pessoa
humana. Eu, quando vejo algum pela primeira vez, no lhe estudo a boca nem os
olhos, nem as mos; estudo-lhe o nariz. Mostra-me o nariz, e eu direi quem s.

O nariz do comendador Nunes era a
coisa mais vulgar deste mundo; no exprimia coisa nenhuma de jeito, nem de
elevao. Era um promontrio, nada mais. E, todavia, o comendador Nunes tirava
grande vaidade do nariz, por lhe haver dito um sobrinho que era nariz romano.
Havia,  verdade, uma corcova no meio da extensa linha nasal do comendador
Nunes, e naturalmente foi por zombaria que o sobrinho chamou quilo romano. A
corcova era um acervo de protuberncias irregulares e impossveis. Em suma,
podia-se dizer que a cara do comendador Nunes era composta de dois Estados
divididos por uma cordilheira extensa.

Fora destas circunstncias nasais,
nada havia que dizer da pessoa do comendador Nunes. Era boa figura e boa alma.

Dizer quais eram os seus meios de
vida, e o seu passado, importa pouco para a nossa histria. Basta dizer que se
quisesse deixar de trabalhar, j tinha que comer, e deixar aos filhos, e 
esposa.

A esposa do comendador Nunes era
uma rechonchuda senhora de 46 anos, relativamente fresca, pouco amiga de
brilhar fora de casa, e toda dada aos cuidados do governo domstico. O seu
casamento com o comendador Nunes foi feito contra a vontade do pai, pela razo
de que, nesse tempo, Nunes no tinha vintm. Mas o pai era boa alma, e apenas
soube que o genro ia fazendo fortuna, fez as pazes com a filha. Morreu nos
braos de ambos.

Amaram-se muito os dois esposos, e
os frutos desse amor foram nada menos de dez filhos, dos quais apenas escaparam
trs, Lusa, Nicolau e Pedrinho.

Nicolau tinha 20 anos, Pedrinho 7,
e apesar desta notvel diferena de idade no se pode dizer quem tinha mais
juzo, se Pedrinho, se Nicolau.

Desejoso de o ver em boa posio
literria, Nunes mandara o filho passar alguns anos na Academia de So Paulo, e
realmente ele os passou ali, at obter uma carta de bacharel. O diploma dado ao
jovem Nicolau podia fazer crer que ele de fato sabia alguma coisa; mas era
completa iluso. Nicolau saiu sabendo pouco mais ou menos o que sabia antes de
l entrar.

Em compensao, ningum era mais
versado no esticado das luvas, no talhado da casaca, no apertado da bota, e
outras coisas assim, em que Nicolau era mais que bacharel, era doutor de borla
e capelo.

Lusa tinha 18 anos, e podia-se
dizer que era a flor da famlia. Baixinha e delgada, um tanto plida e morena,
Lusa inspirava facilmente simpatia, e mais do que simpatia a quem a visse pela
primeira vez. Vestia bem, mas aborrecia o luxo. Tocava piano, mas aborrecia a
msica. Alguns caprichos tinha que,  primeira vista, poderiam desagradar  gente,
mas, bem pesadas as coisas, as suas qualidades venciam os caprichos; o que era
uma grande compensao.

D. Feliciana tinha na filha todas
as suas esperanas de imortalidade. Dizia ela que a sua ascendncia era uma
linha no interrompida de donas-de-casa. Queria que a filha fosse uma digna
descendente de to preclaro sangue, e continuasse a tradio que recebera.
Lusa dava esperana disso.

Tal era a famlia Nunes.

CAPTULO II

Como ia dizendo, grande era a
agitao em casa do comendador Nunes em certa noite de abril de 1860.

A causa desta agitao era nada
menos que a apresentao de um rapaz, recentemente chegado do Norte, parente
remoto dos Nunes e indigitado noivo da menina Lusa.

Chamava-se Alberto o rapaz, e
tinha seus 27 anos feitos. A natureza o dotara de uma excelente figura e de um
bom corao. No escrevi  toa estes qualificativos; o corao de Alberto era
bom, mas a figura era muito melhor.

O pai do candidato escrevera dois
meses antes ao comendador Nunes uma carta em que lhe anunciava a vinda do
filho, aludia s conversas que tiveram ambos os velhos acerca do enlace
matrimonial dos pequenos.

O comendador recebeu esta carta
logo depois do jantar, e no a leu, porque era regra sua no ler nada depois do
jantar, sob pretexto de que lhe perturbaria a digesto.

Pedrinho, que tinha tanto juzo
como o irmo bacharel, achou a carta em cima da mesa, f-la em pedaos para
arranjar canoas de papel e armar assim uma esquadra dentro de uma bacia. Quando
deram por esta travessura trs quartas partes da carta j estavam em nada,
porque o pequeno vendo que alguns navios no navegavam bem, de todo os
destruiu.

Os pedaos que ficaram eram apenas
palavras soltas, e com algum sentido... mas que sentido! S restavam palavras
vagas e terrveis: teus... amores... Lusa... ele... flor em boto...
lembras-te?

Quando a senhora D. Feliciana leu
essas perguntas misteriosas sentiu que o sangue lhe subia todo ao corao, e
depois  cabea; estava iminente um ataque apopltico. Acalmou-se felizmente,
mas ningum pde estancar-lhe as lgrimas.

Durante o longo tempo de casado
nunca a senhora D. Feliciana duvidara uma vez sequer do marido, que alis foi
sempre o mais refinado hipcrita que o diabo mandou a este mundo. Aquele golpe,
no fim de tantos anos, foi tremendo. Debalde o comendador Nunes alegava que de
fragmentos nenhum sentido se poderia tirar, a esposa ofendida persistia nas
recriminaes e repetia as palavras soltas da carta.

 Queridinha, disse o comendador,
esperemos outra carta, e tu vers a minha inocncia mais pura que a de uma
criana de bero.

 Ingrato!

 Feliciana!

 Vai-te, monstro!

 Mas, minha filha...

 Flor em boto!

  uma frase vaga.

 Teus amores!...

 Duas palavras soltas; pode ser
que ele quisesse dizer. Como vo os teus filhos, esses dois amores. J vs...

 Lembras-te?

 Que tem isso? Que h nessa
palavra que possa encerrar um crime?

 Ele!

E nisto passaram longas horas e
longos dias.

Afinal, Feliciana se foi acalmando
com o tempo, e ao cabo de um ms veio nova carta do pai de Alberto dizendo que
impreterivelmente o rapaz estava aqui da a um ms.

Por felicidade do comendador
Nunes, o pai do noivo no tinha a musa frtil, e a segunda carta era mais ou
menos do mesmo teor da primeira, e a senhora D. Feliciana, j convencida,
esqueceu completamente os rigores do marido.

Comunicada a notcia ao objeto
dela, que era a menina Lusa, nenhuma objeo fez esta ao casamento, e disse
que estaria por tudo o que o pai quisesse.

 Isso no, disse o comendador, eu
no te obrigo a casar com ele. Se gostares do rapaz, sers sua esposa; no caso
contrrio, f-lo-ei voltar com as mos abanando.

 Hei de gostar, respondeu Lusa.

 Tens algum namoro? perguntou
Nunes com alguma hesitao.

 Nenhum.

Suspeitando que podia haver alguma
coisa, que a menina no ousaria confiar-lhe, Nunes incumbiu a mulher de sondar
o corao da pequena.

Revestiu-se a senhora D. Feliciana
daquela meiga severidade, que tanto quadrava com o seu carter, e interrogou
francamente a filha.

 Lusa, disse ela, eu fui feliz
no meu casamento porque amei muito teu pai. S h uma coisa que faa uma noiva
feliz,  o amor. O que  amor, Lusa?

 No sei, mame.

Feliciana suspirou.

 No sabes? disse ela.

 No sei

  incrvel!

  verdade.

 E serei eu com os meus quarenta
e seis anos, que te ensine o que  o amor? Ests zombando comigo. Nunca
sentiste nada por algum rapaz?

Lusa hesitou.

 Ah! disse a me, vejo que
sentiste j.

 Senti uma vez palpitar-me o
corao, disse Lusa, ao ver um rapaz, que logo no dia seguinte me escreveu uma
carta...

 E tu respondeste?

 Respondi.

 Desgraada! Nunca se respondem a
estas cartas sem ter certeza das intenes do autor delas. Teu pai... Mas
deixemos isto. Respondeste s uma vez?...

 Respondi vinte e cinco vezes.

 Jesus!

 Mas ele casou com outra, segundo
soube depois...

 A est. V que imprudncia...

 Mas ns trocamos as cartas.

 Foi s esse, no?

 Depois veio outro...

D. Feliciana ps as mos na
cabea.

 A esse escrevi s quinze.

 S quinze! E veio mais outro?

 Foi o ltimo.

 Quantas?

 Trinta e sete.

 Santo Nome de Jesus!

D. Feliciana estava louca de
surpresa. Lusa, a muito custo conseguiu acalm-la.

 Mas em suma, disse a boa me, ao
menos agora no amas nenhum?

 Agora nenhum.

D. Feliciana respirou, e foi
tranqilizar o marido acerca do corao da filha. Lusa contemplou a me com
verdadeiro amor, e foi para o quarto responder  quinta carta do alferes
Coutinho, amigo ntimo do bacharel Nunes.

CAPTULO III

Repito, e agora ser a ltima vez,
grande era a agitao em casa do comendador Nunes nesta noite de abril de 1860.

Lusa j estava vestida de ponto
em branco e encostada  janela conversava com uma amiga que morava na
vizinhana e costumava ir l tomar ch com a famlia.

D. Feliciana, tambm preparada,
dava as ordens convenientes para que o futuro genro recebesse uma boa impresso
quando l chegasse.

O comendador Nunes estava fora; o
paquete do Norte havia chegado perto das ave-marias, e o comendador foi a bordo
receber o viajante. Acompanhava-o Nicolau. Quanto a Pedrinho, travesso como um milho
de diabos, ora puxava o vestido da irm, ora tocava tambor no chapu do Vaz
(pai da amiga de Lusa), ora surripiava um doce.

O Sr. Vaz, a cada travessura do
pequeno, ria com aquele riso amarelo de quem no acha graa nenhuma; e por duas
vezes esteve tentado a dar-lhe um belisco. Lusa no reparava no irmo, to
entretida estava nas suas confidncias amorosas com a filha do Vaz.

 Mas voc est disposta a casar
com esse sujeito a quem no conhece? perguntava a filha do Vaz a Lusa,
encostadas ambas  janela.

 Ora Chiquinha, voc parece tola,
respondia Lusa. Eu disse que casava, mas isso depende das circunstncias. O
Coutinho pode roer-me a corda como j roeu  Amlia, e no  bom ficar
desprevenida. Alm disso, pode ser que o Alberto me agrade mais.

 Mais do que o Coutinho?

 Sim.

  impossvel.

 Quem sabe? Eu gosto de Coutinho,
mas estou certa de que ele no  a flor de todos os homens. Pode haver outros
mais bonitos...

 Isso h, concordou
maliciosamente a Chiquinha.

 Por exemplo, o Antonico.

Chiquinha fez um sinal afirmativo.

 Como vai ele?

 Est bom. Pediu-me uma trana de
cabelos anteontem...

 Sim!

 E eu respondi que depois, quando
estivesse mais certa de seu amor.

Neste ponto do dilogo, o Vaz que estava
na sala fungou uma pitada. Lusa reparou que era feio deix-lo s, e saram
ambas da janela.

Entretanto, a senhora D. Feliciana
dera as ltimas ordens e veio para a sala. Bateram sete horas, e o viajante no
aparecia. A esposa do comendador Nunes estava ansiosa por ver o genro, e a
futura noiva sentia uma coisa que se parecia com a curiosidade. Chiquinha fazia
os seus clculos.

 Se ela no o quiser, pensava
esta dcil criatura, e se ele me agradar sacrifico o Antonico.

Vinte minutos depois houve um
rumor na escada, e D. Feliciana correu ao patamar para receber o candidato.

Entraram efetivamente na sala os
trs personagens esperados, o Nunes, o filho e Alberto. Todos os olhos se
cravaram neste, e durante dois minutos, ningum viu mais ningum na sala.

Alberto compreendeu facilmente que
era objeto da ateno geral, e no se perturbou. Pelo contrrio, subiram-lhe 
cabea uns fumos de soberba, e esta boa impresso lhe desatou a lngua e deu
livre curso aos cumprimentos.

Era um rapaz como qualquer outro.
Apresentava-se bem, e no falava mal. Nada tinha em suas feies que fosse
notvel, exceto um certo modo de olhar quando algum lhe falava, um certo ar de
impacincia. Isto mesmo ningum lho notou ento, nem depois naquela casa.

Passaremos por alto as primeiras
horas da conversa, que foram empregadas em narrar a viagem, a referir as
notcias que mais ou menos podiam interessar s duas famlias.

s 10 horas vieram dizer que o ch
estava na mesa, e no era ch, e sim uma esplndida ceia preparada com o esmero
dos grandes dias. Alberto deu o brao a D. Feliciana, que j estava cativa das
maneiras dele, e todos se encaminharam para a sala de jantar.

A situao daquelas diferentes
pessoas j estava muito modificada; a ceia acabou por estabelecer entre Alberto
e os outros uma discreta familiaridade.

Entretanto, apesar da extrema
amabilidade do rapaz, parecia que Lusa no estava contente. O comendador Nunes
sondava com os olhos a fisionomia da filha, e estava inquieto por no ver nela
o menor vestgio de alegria. Feliciana toda enlevada nos modos e palavras de
Alberto no dera f daquela circunstncia, ao passo que Chiquinha, descobrindo
no rosto de Lusa uns sinais de despeito, parecia alegrar-se com isto, e
sorrir-lhe a idia de sacrificar desta vez o Antonico.

Reparava nestas coisas o Alberto?
No. A preocupao principal do candidato, durante a ceia, era a ceia, e nada
mais. Outras qualidades podiam faltar ao rapaz, mas uma j lhe notava o pai da
Chiquinha: a voracidade.

Alberto era capaz de comer a rao
de um regimento.

Vaz reparou nesta circunstncia,
como j tinha reparado em outras. Nem parece que o pai de Chiquinha viesse a este mundo para outra coisa. Tinha olho fino e lngua afiada. Ningum podia
escapar ao seu terrvel binculo.

Alberto tinha deixado a mala em um
hotel onde alugou sala e quarto. O comendador, no desejando que o rapaz se
sacrificasse mais aquela noite, que pedia descanso, pediu a Alberto que no
fizesse cerimnia, e apenas julgasse que eram horas se fosse embora.

Alberto, entretanto, parecia
disposto a no usar to cedo da faculdade que lhe dava Nunes. Amvel,
conversado e prendado, o nosso Alberto entreteve a famlia at muito tarde; mas
por fim saiu, com grande pena de D. Feliciana e grande satisfao de Lusa.

Por que motivo esta satisfao?
Tal era a pergunta que a si mesmo fazia o comendador quando Alberto se
retirara.

 Sabes que mais, Feliciana? disse
o Nunes apenas se achou no quarto com a mulher, creio que a rapariga no
simpatizou com o Alberto.

 No?

 No tirei os olhos dela, e posso
afianar que parecia extremamente aborrecida.

 Pode ser, observou D. Feliciana,
mas isso no  uma razo.

 No ?

 No .

Nunes abanou a cabea.

 Raras vezes se pode vir a gostar
de uma pessoa de que se no gostou logo, disse ele sentenciosamente.

 Oh! isso no! respondeu logo a
mulher, tambm eu quando te vi antipatizei solenemente contigo, e entretanto...

 Sim, mas isso  raro.

 Menos do que pensas.

Houve um silncio.

 E contudo este casamento era
muito do meu agrado, suspirou o marido.

 Deixa estar que eu arranjo tudo.

Com estas palavras de D. Feliciana
terminou a conversa.

CAPTULO IV

Qual era a causa da tristeza ou
aborrecimento de Lusa?

Quem a adivinhou foi Chiquinha. A
causa foi um despeito de moa bonita. Alberto era amvel demais, amvel com
todos, olhando para ela com a mesma indiferena com que olhava para as outras
pessoas.

Lusa no queria ser olhada assim.

Imaginava ela que um rapaz, que
fizera uma viagem para vir apresentar-se candidato  sua mo, devia prestar-lhe
alguma homenagem, em vez de a tratar com a mesma delicadeza que dispensava aos
outros.

No dia seguinte estas impresses
de Lusa estavam mais dissipadas. O sono foi a causa disso, e tambm a
reflexo.

 Talvez que ele no ousasse...
pensava ela.

E esperou que ele l fosse nesse
dia.

Pouco depois do almoo recebeu
Lusa uma carta do alferes Coutinho. O namorado j tinha notcia do pretendente,
e escrevera a epstola meio lacrimosa, meio ameaadora. Era notvel o seguinte
perodo:

... Podes, mulher ingrata, calcar
a teus ps o meu corao, cujo crime foi amar-te com todas as suas foras, e
palpitar por ti a todas as horas!... Mas o que tu no podes, o que ningum
poderia nem Deus,  fazer com que eu te no ame agora e sempre, e at debaixo
da fria campa!... E um amor destes merece desprezo, Lusa?...

A epstola do alferes impressionou
a moa.

 Este ama-me, pensava ela, e o
outro!...

O outro chegou pouco depois, j
reformado na roupa, j mais corteso com a moa. Um quarto de hora bastou para
que Lusa modificasse a sua opinio a respeito do rapaz.

Alberto aproveitou as liberdades
que lhe davam com ela para lhe dizer que a achava mais bela do que a sua
imaginao sonhara.

 E de ordinrio, acrescentou ele,
a nossa imaginao nos ilude. Se desta vez estive abaixo da realidade, a causa
disto  que a sua beleza est alm da imaginao humana.

Neste sentido fez o noivo um discurso
obscuro, oco e mal alinhavado, que ela ouviu com delcias.

 Veio de to longe para zombar de
mim? perguntou ela.

 Zombar! disse Alberto ficando
srio.

 Oh! perdo, disse ela, eu no
queria ofend-lo; mas creio que isso s por zombaria se poderia dizer...

 Oh! nunca! exclamou Alberto
apertando docemente a mo de Lusa.

O comendador surpreendeu esta
cena, e a sua alegria no conheceu limites. Todavia era conveniente
dissimul-la, e assim o fez.

 Tudo caminha bem, dizia ele consigo.
O rapaz no  peco.

E no era. Nessa mesma tarde
perguntou ele a Lusa se queria aceit-lo por esposo. A moa no contava com
esta pergunta  queima-roupa e no soube que lhe responder.

 No quer? perguntou o rapaz.

 Eu no disse isso.

 Mas responda.

 Isso  com meu pai.

 Com seu pai? perguntou Alberto
espantado; mas ele governa ento o seu corao?...

Lusa nada respondeu, nem podia
responder. Houve um longo silncio; Alberto foi o primeiro que falou.

 Ento, disse ele; que me
responde?

 Deixe-me refletir.

Alberto fez uma careta.

 Refletir? perguntou ele. Mas o
amor  uma coisa e a reflexo  outra.

  verdade, respondeu a moa; e
neste caso, deixe que eu o ame.

No contando com esta resposta,
Alberto empalideceu, e viu bem que era uma espcie de castigo que ela queria
dar-lhe por causa da sua intempestiva reflexo. Pareceu-lhe que fora esquisito
falar de amor a uma moa a quem via pela primeira vez.

Lusa no se arrependeu da pequena
lio dada ao pretendente, e pareceu-lhe conveniente conserv-lo na incerteza
durante alguns dias, a fim de o castigar ainda mais.

No contava ela porm com o golpe
que lhe preparava o alferes Coutinho.

J sabemos que este alferes era
ntimo amigo de Nicolau. Vrias vezes o filho de Nunes o convidara para ir 
casa do pai; mas Coutinho sempre recusara o convite delicadamente, e parece que
o fazia justamente para se no aproximar de Lusa.

Como?

 verdade. Na opinio de Coutinho,
o amor no vive s de mistrio, vive tambm de distncia.

A mxima poderia ser excelente,
mas no caso atual no prestava para nada. Coutinho compreendeu isto
perfeitamente, e com destreza conseguiu ser convidado nessa noite por Nicolau
para l ir.

De maneira que, no meio de seus
devaneios poticos, ouvindo as narraes que Alberto fazia diante da famlia
encantada com o narrador, Lusa viu assomar  porta a figura do irmo e a do
alferes.

Lusa reteve um grito.

Nicolau apresentou o amigo a toda
a famlia, e a conversa um pouco esfriou com a chegada do novo personagem; mas
no tardou que continuasse no mesmo tom.

Lusa no ousava olhar para um nem
para outro. Alberto nada percebeu nos primeiros momentos; mas Coutinho tinha os
olhos cravados nela com tanta insistncia, que era impossvel no ver nele,
seno um rival feliz, ao menos um pretendente resoluto.

 Veremos! disse ele consigo.

 Quem vencer? perguntava a si
mesmo o alferes Coutinho olhando a furto para o candidato do Norte.

CAPTULO V

Ao passo que o Nunes e D.
Feliciana se davam por felizes julgando bem encaminhadas as coisas, e Chiquinha
premeditava trocar o Antonico pelo Alberto, uma luta se tratava no esprito de
Lusa.

Uma luta neste caso era j
probabilidade de vitria para Alberto, visto que o outro era o namorado antigo,
aceito e amado. O corao de Lusa parecia feito para estas situaes dbias em
que a vaidade de moa toma as feies do amor, com tanta habilidade que ilude
os mais.

Alberto tinha qualidades
brilhantes, ainda que no slidas; mas Coutinho era j o namorado aceito, e
sempre deixava saudades.

Demais Alberto era um bom
casamento, mas a moa sentia que ele queria domin-la depois, e j pressentia
nele alguns sintomas de vontade imperiosa; ao passo que o alferes, exceto
alguns rompantes sem conseqncia, era um verdadeiro paz dalma.

Estas razes pesava-as a moa no
seu interior, e ora se inclinava a um, ora a outro dos dois namorados.

s vezes adotava-os ambos, porque,
ao mesmo tempo que trocava palavras de esperana com Alberto, escrevia cartas
apaixonadas ao alferes.

Nesta situao decorreram alguns
dias, sem que o comendador visse apontar no horizonte uma esperana. Ora a
filha parecia dada ao namoro do Alberto, ora a achava fria, reservada,
indisposta contra ele.

Alberto compreendeu a figura que
estava fazendo, e determinou dar um golpe definitivo.

Uma noite, em que conversava com
ela um pouco retirado dos outros, Alberto perguntou  moa, quando ela menos
esperava:

 Ento? H longos dias espero uma
resposta; confio que ma dar hoje.

Lusa no respondeu logo, mas
quando ia abrir a boca, interrompeu-a Alberto dizendo:

 J sei a causa da sua
esquivana...

 J sabe? perguntou a moa rindo.

Alberto fez com a cabea um sinal
afirmativo.

 J sei, acrescentou ele.

 E qual , no me dir?

 A senhora namora outro.

Lusa ficou sria.

 No se zangue, continuou
Alberto; eu sei que namora a outro, e desejava que de uma vez por todas se
decidisse ou por um ou por outro.

Lusa ia responder ao rapaz, e j
preparava uma dose de indignao necessria no caso, quando a apario do
comendador Nunes veio interromper a cena.

Nunes reparou no acanhamento dos
dois, e ficou triste; mas no tardou que lhe voltasse a alegria, ao ver as
maneiras afveis com que ambos se tratavam em presena dele.

To contente ficou que no hesitou
em aludir ali mesmo ao projeto do casamento sem reparar na inconvenincia do
caso.

Lusa no combateu a idia do pai
nem tambm se mostrou solcita em aceit-la; ouviu-o apenas.

Quando o comendador ficou a ss
com Alberto disse:

 Homem, voc parece-me palerma.

 Por qu?

 Ora, porqu! H tanto tempo para
obter uma resposta. No consegue fazer-se amar estando s em campo.

 Eis o seu engano.

 Como assim?

Alberto fez um gesto pedindo
silncio, e foram para o gabinete do comendador. Este fechou a porta e ambos
ficaram a ss.

 Ento, que temos? perguntou
Nunes.

 H mouro na costa, segredou
Alberto.

 Ento  recente, porque at
agora...

 No,  antigo.

 Antigo?

 Sim, j existia antes da minha
vinda.

Nunes ficou aturdido com a
notcia.

 E quem  esse peralta? disse ele
bufando de raiva.

 No lho posso dizer, respondeu
discretamente o candidato.

O comendador entrou a passear
aflito, sem atender s rogativas de Alberto que lhe recomendava silncio.

 Vou saber quem , disse ele
caminhando para a porta.

 Como? perguntou Alberto.

 Vou interrogar Lusa.

Alberto travou-lhe do brao e
f-lo sentar.

 Meu caro sogro, disse Alberto 
chamo-lhe assim porque estou certo da vitria final , no convm nunca
proceder por meios violentos. Desde que alguma coisa possa dar ao meu rival a
aurola da perseguio estou perdido. Deixe o negcio por minha conta.

Nunes concordou com estas razes
de Alberto e viu nelas o indcio de uma grande cabea.

Abraou-o e saiu a passeio.

CAPTULO VI

Nicolau, que era um estouvado,
nada compreendeu da situao em que se achava a irm, e ignorava absolutamente
o namoro do Coutinho, porque este, conhecendo a leviandade do amigo, nunca lhe
confiou nada.

No acontecia, porm, o mesmo a um
primo deles, o jovem Gonalves, filho de um irmo de D. Feliciana, e chegado
poucos dias antes de Minas, onde o pai tinha uma fazendola.

Gonalves compreendeu logo que
Alberto e Coutinho namoravam a prima Lusa, e que esta os namorava a ambos.

Era tanto mais de admirar que
Gonalves fizesse esta descoberta, quanto que dificilmente se acharia outro
mais papalvo que ele. Talvez por isso mesmo no procurasse Lusa  vista dele
encobrir o jogo que estava fazendo.

Qualquer que fosse a razo,
Gonalves descobriu a coisa e achou-a muito engraada. Neste sentido fez uma
aluso  prima.

 Prima, disse ele, voc  muito
fina...

 Por qu? inquiriu esta muito
espevitada.

 Porque acendeu vela a dois
santos, respondeu Gonalves tranqilamente.

Lusa deu de ombros e saiu.

Mas desde esse dia tratou de se
no expor aos olhos terrveis do sonso Gonalves. E como pudesse acontecer que o
Coutinho, fiado na palermice de Gonalves, no dissimulasse convenientemente a
sua chama, Lusa tratou de o avisar.

 Cuidado com Gonalves.

 Por qu?

 Pode descobrir-nos.

 Ora,  um tolo.

 No,  um sonso.

Alberto no teve o benefcio deste
aviso; mas Lusa j lhe ia dando mais corda, e se lhe no disse to claramente
como a Coutinho o que pensava do primo Gonalves, deu-o a entender.

A situao de Alberto melhorara,
mas no era ainda igual  de Coutinho. Se Lusa desse mostras de o desprezar
era provvel que o candidato desistisse das suas pretenses; mas como ela
aceitava em princpio a sua corte, estava Alberto resolvido a pleitear a causa.

Alm disso, as cartas do pai eram
instantes a respeito do assunto que o trouxera ao Rio de Janeiro, e o prprio
rapaz estava ansioso por voltar  provncia natal.

Nestes termos, lembrou-se de dar
um golpe desusado, e prprio de romance: ir entender-se com o rival.

O caso era difcil; era necessrio
muito tino para no cair no ridculo. Convinha, porm, deslindar a dificuldade
e fugir ao prolongamento de uma situao insuportvel para os dois mulos.

Apenas assentou nisto foi Alberto
procurar Coutinho. Achou-o em casa. Como se conheciam da casa do comendador era-lhes fcil disfarar algum tanto a situao singular em que se achavam um
para com o outro.

Coutinho, alm disso, posto
parecesse impetuoso nos seus afetos, era-o ao menos nas suas cartas  tinha
hbitos de sociedade e sabia dissimular perfeitamente.

As primeiras palavras foram indiferentes;
Coutinho compreendeu, porm, que algum motivo trazia Alberto  casa dele, e
esse motivo no podia deixar de ser a pessoa e a mo de Lusa.

 Querer que eu lhe ceda as
minhas vantagens mediante alguma partcula do dote? dizia ele.

Pela sua parte Alberto tambm
reflexionava:

 Por onde chegarei ao terrvel
assunto? O sujeito no me parece de boa avena. Vamos, coragem!

E de repente, quando o Coutinho
menos esperava, dispara-lhe em cheio esta pergunta:

 O senhor ama D. Lusa?

Coutinho estremeceu com a
pergunta, posto houvesse percebido que a namorada era o assunto exclusivo da
visita. Durante alguns minutos no soube que responder.

Alberto repetiu a pergunta.

Coutinho tirou charutos da
algibeira, ofereceu a Alberto, que o no aceitou, e enquanto se preparava para
acender outro, respondeu  pergunta com outra pergunta:

 E o senhor tambm a ama?

 Porque o hei de negar se o
senhor o sabe, e porque o negar o senhor se eu o sei? respondeu Alberto.

 Nesse caso, redargiu Coutinho
com finura, no foi para dizermos um ao outro aquilo que ambos sabemos que o
senhor c veio.

 No.

 Queira falar.

 Agora aceito o seu charuto,
disse amigavelmente Alberto.

Acendeu o charuto e comeou a
falar.

CAPTULO VII

 Quando eu cheguei do Norte,
disse Alberto, j o senhor namorava a pessoa em questo. Eu s o soube depois. Antes, porm, de o saber, no pude ser insensvel s graas
daquela moa e comecei a am-la.

Coutinho fez um ar de riso.

 De que se ri? perguntou Alberto.

 De que h de ser? disse Coutinho
sacudindo a cinza do charuto; da sua discrio. O senhor veio justamente para
casar com ela.

Alberto mordeu o beio.

 No o nego, disse ele, mas  to
pouco interessante para o nosso caso que fosse esse o fim da minha vinda, que o
no quis dizer. Se essa, porm,  a dvida di-lo-ei francamente. Este
casamento, antes de ser um desejo do meu corao, era um desejo de nossas
famlias.

 Sem consulta da pessoa em
questo?

 Isto vai alm do objeto da minha
visita. No vim aqui para discutir com o senhor o acerto de pessoas
respeitveis, que podem errar certamente, mas cujo fim  a felicidade de seus
filhos.

 Desculpe-me, disse Coutinho; no
queria mago-lo nem ofend-lo; continue e sejamos breves.

Alberto continuou:

 Ambos respeitamos a pessoa de
que se trata; nenhum de ns deseja outra coisa no seja a felicidade dela.
Estamos conformes?

Coutinho fez um gesto afirmativo.

 Ora bem, disse Alberto, de que
se trata? De afianar e apressar a felicidade dela, e para isso  necessrio
que um de ns deixe o campo livre ao outro. Isto  o que venho propor com toda
a sinceridade de que sou capaz.

 Acho excelente a sua proposta,
respondeu Coutinho depois de alguns momentos de silncio; mas se me  dado
comparar as palavras com as aes, cuido que no  proposta, mas uma ordem que
me d! Um de ns deve abandonar o campo, diz o senhor. Se o senhor quisesse
abandonar t-lo-ia feito sem me dizer nada; mas no  isso; o senhor vem ter
comigo, declara que ama D. Lusa e prope que um de ns ceda o campo ao outro.
Claro  que sou eu o condenado a ceder.

 O senhor no me deixou acabar,
observou Alberto.

 Acabe.

 Eu no desejo que um de ns se
resolva desde j a deixar o campo; o que eu proponho  que cada um de ns
procure saber se tem elementos para se fazer eleger noivo da moa de que se
trata. Isto s pode saber apresentando cada um de ns o seu ultimatum.
Ela escolher em conformidade do seu corao e o vencido retirar-se- para as
tendas.

Leitor desconfiado, no digas que
isto  impossvel; eu estou contando um fato autntico; e posto no esteja isto
de acordo com as regras da arte, eu conto o caso, como o caso foi.

Coutinho fez algumas objees 
proposta do rival. Alegou a primeira razo de todas, a singularidade da
situao que se ia criar entre ambos a respeito de uma moa, que ambos deviam
respeitar.

 No esqueamos que ela tem
alguma coisa, disse ele, e isto pode parecer um jogo em que o ganho consiste
precisamente no dote de D. Lusa.

 Eu tambm tenho alguma coisa,
respondeu Alberto com altivez.

 Bem sei, disse Coutinho, mas eu
no tenho nada, e a meu respeito a objeo fica de p. Espero que me acredite
que eu neste negcio no tenho em mim os bens daquele anjo, e que s o corao
me arrasta sabe Deus a que drama ntimo!

Se Alberto fosse mais penetrante,
ou Coutinho menos dissimulado, descobrir-se-ia que este pretexto de Coutinho
era mais teatral que verdadeiro. Amava sem dvida a moa, mas no a amaria
talvez se no tivesse nada de seu.

Coutinho exps ainda outras
objees que a seu ver eram valiosas, mas todas as desfez Alberto com algumas
razes suas, e ao cabo de duas horas ficou assentado que os dois campees
mediriam as suas foras e procurariam obter de D. Lusa a resposta decisiva. O
preferido comunicaria logo ao outro o resultado da campanha, e o outro abateria
as armas.

 Mas que prazo lhe parece melhor?
perguntou Alberto.

 Quinze dias, respondeu Coutinho.

Despediram-se.

CAPTULO VIII

O comendador Nunes estava ansioso
por falar  filha e resolver a crise por um meio violento; mas Alberto fez com
que ele prometesse neutralidade.

 Deixe que eu arranjo tudo, disse
o candidato do Norte.

 Mas...

 Fie-se em mim. Disse alguma coisa  senhora D. Feliciana?

 Nada.

 Pois no convm que ela saiba
nada.

Entraram os dois campees na luta
suprema. As condies eram aparentemente diversas, mas bem apreciadas eram
iguais. Se Coutinho no ia l com tanta freqncia, em compensao era o
candidato para quem ela mais pendia; se Alberto tinha a facilidade de lhe falar
mais vezes e estar mais assiduamente com ela, em compensao era o menos aceito
dos dois.

Coutinho tinha o recurso das
cartas, e entrou a usar dele com todas as foras. Nunca o vocabulrio de Cupido
subiu a maior grau de calor e entusiasmo; Coutinho empregava todas as tintas da
palheta: o cor-de-rosa da felicidade conjugal, o sombrio e negro dos
desesperos, o sangneo das revolues ltimas; tudo fez o seu papel nas
epstolas do pretendente fluminense.

Alberto compreendeu que a epstola
devia acompanhar os seus meios de campanha, e usou dela com descomunal
liberalidade.

Lusa ignorava todas as
circunstncias acima referidas, e o redobrar de esforos da parte dos dois candidatos
no fez mais do que alimentar-lhe a natural vaidade de moa bonita.

Entretanto, veio uma carta do pai
de Alberto instante por uma resoluo definitiva; Alberto resolveu dar o grande
golpe e dirigiu-se  esquiva moa.

 D. Lusa, lhe disse ele, j sabe
que eu ardo, que eu sinto dentro de mim um terrvel fogo que me h de consumir.

 Mas...

 Oua-me. Era meu interesse
conservar as iluses em vez de me expor a um desengano certo; mas h situaes
que no comportam dvidas; eu prefiro uma cruel franqueza; farei depois o que
me inspirar o desespero.

Lusa sorria-se sem dizer palavra.

 Zomba comigo, j vejo, disse
melancolicamente Alberto.

 Oh! no!

 Ento fale!

 Pois bem...

Hesitou.

 Diga, ama-me? instou Alberto.

 Amo, respondeu Lusa deitando a
fugir.

O paraso de Maom, com todas as
delcias prometidas no Alcoro, no chega aos ps da felicidade que a simples
resposta da moa introduziu na alma do pobre candidato.

Alberto saiu para a rua.

Precisava de ar.

De tarde foi ter com o rival.

 Enfim! disse ele ao entrar.

 Que h? perguntou Coutinho
tranqilamente.

 Tudo est decidido, respondeu
Alberto.

 Derrota?

 Vitria! Perguntei-lhe se me
amava; disse-me claramente que sim. No pode imaginar o prazer que eu senti
quando ouvi de seus lbios a mais doce palavra que os homens inventaram.

 Imagino tanto mais esse prazer,
redargiu fleugmaticamente o Coutinho, quanto que eu mesmo ouvi essa palavra a
meu respeito.

Alberto enfiou.

 Quando?

 Ontem de noite.

  impossvel! clamou Alberto
furioso.

 E j depois disso, continuou
Coutinho finamente, recebi esta carta que  a confirmao do que ontem lhe
ouvi.

Dizendo isto apresentou a Alberto
uma carta de Lusa.

 De maneira que... balbuciou
Alberto.

 De maneira que, concluiu
Coutinho, estamos na situao em que nos achamos antes.

 Olhe, eu teria deixado o campo
se no me parecesse covardia, e se no sofresse horrivelmente com a separao,
porque eu amo-a com todas as foras de minha alma.

 Como eu, disse Coutinho.

 Que faremos? perguntou Alberto
depois de uma pausa.

 Insistir.

 Como?

 Cada um de ns lhe perguntar se
ela quer casar e nos escolhe para noivo. A isto no  possvel que ela d a
mesma resposta a ambos; h de decidir-se por um.

Dando este conselho, Coutinho
procedia velhacamente porque justamente alguns minutos antes de entrar Alberto
tinha mandado uma carta  moa perguntando se podia ir pedir-lhe a mo ao pai,
e esperava que a resposta chegasse logo e pusesse termo ao conflito.

Mas a resposta no veio.

Ficou convencionado que dentro de
oito dias tudo estaria resolvido, e um deles seria o vencedor.

Lusa disse  noite ao Coutinho
que no mandara resposta  carta por no ter podido escrever.

 Mame anda muito desconfiada,
disse ela.

 Bem, mas que me responde agora?
perguntou Coutinho.

 Oh! deixe-me escrever, disse a
moa, eu quero dizer-lhe tudo o que sinto... espere, sim?

Coutinho declarou que esperava.

 Contudo... disse ele.

 O qu?

 Se no fosse agradvel a
resposta, se no fosse a vida que eu espero e me  necessria?

Isto era ver se obtinha logo a
resposta.

Lusa respondeu:

 No seja desanimado...

 Ento?

 Olhe, mame que est com os
olhos em mim.

Oito dias se passaram nestas
dvidas at que os dois candidatos, por comum acordo, mandaram uma carta 
moa, um verdadeiro ultimatum.

Era uma sexta-feira, dia aziago, e
alm disso 13 do ms. Os mseros pretendentes no repararam nisso, e
atreveram-se a lutar com a fortuna em dia de tamanha desgraa.

Coutinho foi ento  casa de
Alberto.

 Mandei a minha carta, disse o
fluminense.

 E eu a minha.

 Esperemos a resposta.

 Que lhe parece? perguntou
Alberto.

 Parece-me... No sei que me h de
parecer, respondeu o Coutinho; eu tenho todas as provas de ela me amar
loucamente.

 Tanto no digo eu, observou
Alberto; loucamente no creio que me ame, mas cuido que sou amado.

O fim evidente de cada um destes
personagens era assustar o adversrio, caso este ficasse vitorioso. Entraram a
alegar cartas apaixonadas, flores, tranas de cabelo, e o Coutinho chegou at a
confessar um beijo na mo.

De repente abre-se a porta.

Entra o comendador Nunes plido e
trmulo.

 Que  isto? disseram os dois.

Nunes deixou-se cair em uma
cadeira, e com a voz trmula e o olhar desvairado, confessou a sua desgraa.

Lusa fugira com o primo!

FIM
